A cidade diminuía seus ruídos. As portas se fechavam. O trabalho do dia terminava. No Beit Midrash de Tafilalt, porém, a noite não era um espaço vazio.

Os filhos e discípulos de Rabi Yaakov Abuhatzeira deixaram descrições de sua rotina. Não narram uma única revelação espetacular. Narram repetição: estudo, breve repouso, Tikkun Chatzot, Cabalá, tefilá. Justamente por isso, o testemunho é tão forte.

Milagre impressiona por um instante. Uma rotina santa revela o que um homem escolheu fazer com milhares de instantes.

Segundo o testemunho transmitido por seu filho Rabi Aharon, o Abir Yaakov estudava à noite capítulos de Mishná de memória, seguia para os versículos e a Guemará, descansava apenas um pouco e se levantava à meia-noite. Então dizia Tikkun Chatzot: primeiro o lamento pela Shechiná no exílio; depois o consolo e o louvor. Em seguida, estudava obras de Cabalá até a proximidade da manhã e ia ao Beit HaKnesset para Shacharit.

Antes do segredo, a ordem

Existe uma tentação quando se fala de grandes mekubalim: correr diretamente para o extraordinário. O próprio Abir Yaakov fechou esse atalho.

Na introdução de Alef Biná, ele apresenta uma ordem de formação. Primeiro Mikrá; depois Mishná; depois Guemará; em seguida, conhecimento firme da halachá; somente então o estudo verdadeiro do sod.

O segredo não aparece como fuga da base. Surge depois dela.

Essa estrutura é uma proteção. Sem Tanach, a linguagem perde suas raízes. Sem Mishná e Guemará, a mente não aprende a permanecer numa pergunta. Sem halachá, o entusiasmo pode se separar da vontade de Hashem. A Cabalá, então, corre o risco de se tornar espelho da imaginação.

No quarto do Abir Yaakov, as prateleiras não competiam. A Mishná não expulsava o Zohar; o Zohar não diminuía a halachá. Cada dimensão preparava a seguinte.

A meia-noite como encontro

Tikkun Chatzot dá forma religiosa àquilo que muitos preferem não sentir: o mundo ainda está incompleto. A destruição do Templo não pertence apenas ao passado. A ocultação da Presença atravessa a alma, a comunidade e a história.

Levantar-se à meia-noite é recusar a anestesia. Mas o costume não termina no luto. Tikkun Rachel é seguido, nos dias apropriados, por Tikkun Leah. Depois das lágrimas, vêm palavras de consolo. Depois da falta, o estudo.

Isso é importante. A tristeza santa não fecha o homem dentro da tristeza. Ela purifica o desejo e o devolve à tarefa.

O Abir Yaakov não chorava para abandonar o mundo. Ao amanhecer, estava novamente entre pessoas: julgando, ensinando, acolhendo, distribuindo caridade. A noite interior desembocava em responsabilidade pública.

O segredo de continuar

Talvez a parte mais misteriosa dessa história seja também a mais simples: ele voltou a fazer tudo outra vez.

Não há diálogo inventado, tempestade ou porta que se abre sozinha. Há um homem que, noite após noite, constrói um recipiente. Dezoito capítulos de Mishná. Versículos. Guemará. Uma pequena pausa. A voz de Tikkun Chatzot. Etz Chaim. Zohar. Shacharit.

O leitor pode imaginar a lamparina, mas não precisa fabricar uma cena. O essencial já foi preservado pelos que o conheceram: o tempo do Abir Yaakov tinha uma ordem, e essa ordem apontava para Hashem.

Nós costumamos esperar que o momento elevado produza disciplina. A vida dos tzaddikim sugere o movimento inverso. É a disciplina fiel que prepara o homem para reconhecer um momento elevado sem se perder nele.

O quarto onde o Abir Yaakov estudava não ficou santo porque a noite trouxe algo incomum. Ficou santo porque ele não entregou a noite ao vazio.

Referências

  • (Rabi Aharon Abuhatzeira, testemunho sobre a rotina de estudo de seu pai, preservado nas coletâneas biográficas da família.)
  • (Rabi Yaakov Abuhatzeira, introdução a Alef Biná, especialmente a ordem entre Mikrá, Mishná, Talmud, halachá e sod.)
  • (Rabi Shlomo Chayun, introdução a Pituchei Chotam.)
  • (Shulchan Aruch, Orach Chaim 1:3; ensinamentos sobre o luto pela destruição do Beit HaMikdash.)