Por muitos anos, Rabi Yaakov Abuhatzeira desejou subir à Terra de Israel. O desejo não era turístico e tampouco simbólico. Para um homem formado pela Torá, pelo Zohar e pela oração da meia-noite, a Terra não era apenas assunto de livros. Era direção.
Mas Tafilalt não queria deixá-lo partir.
Ali ele era Rav, dayan, mestre e endereço para os que chegavam com disputas, enfermidades ou o coração quebrado. As biografias tradicionais contam que tentou partir mais de uma vez e foi detido pelos pedidos da comunidade. Cada tentativa colocava diante dele duas formas de amor: o amor por Eretz Israel e a responsabilidade pelas pessoas que o Céu havia colocado ao seu redor.
Até que uma resposta se tornou possível. Seu filho, Rabi Massoud, poderia conduzir a comunidade.
Então o Abir Yaakov deixou o Marrocos.
O mapa da subida
O caminho passou pelo norte da África. Argélia, Tunísia, Líbia e Egito aparecem nas reconstruções de sua última viagem. Jerusalém estava adiante, mas o homem que viajava já carregava décadas de Jerusalém dentro de si.
Todas as noites, antes do amanhecer, ele se levantava para Tikkun Chatzot. Chorava pelo exílio da Shechiná e retornava ao estudo. Seu filho Rabi Aharon descreveu uma rotina em que a noite era atravessada por Mishná, Tanach, Guemará e pelos livros da Cabalá. A subida geográfica veio depois de uma vida de subida interior.
Isso muda a leitura da estrada. O destino não começou no dia da partida. Começou quando um homem decidiu que a ausência do Beit HaMikdash não seria uma ideia distante, mas uma falta sentida no meio da noite.
No Egito, porém, a viagem foi interrompida.
Damanhur
O Abir Yaakov adoeceu em Damanhur, na região do delta do Nilo. Não alcançou fisicamente a Terra que buscava. Faleceu em 1880 e foi sepultado no cemitério judaico da cidade.
É difícil atravessar esse ponto sem uma pergunta. Como pode uma vida inteira apontar para Jerusalém e terminar antes dela?
A tradição de Israel não mede toda jornada apenas pelo lugar em que os pés pararam. Moshe Rabenu viu a Terra e não entrou nela. Rabi Yehudá Halevi cantou Tzion a partir do exílio. Gerações disseram “no próximo ano em Jerusalém” sem conhecer a estrada que as levaria até lá.
O desejo verdadeiro também constrói. Ele reorganiza escolhas, horários e prioridades. O Abir Yaakov não chegou a Jerusalém porque sua aspiração fosse incompleta. Talvez sua última viagem revele justamente o contrário: há desejos tão reais que continuam avançando depois que o viajante já não pode caminhar.
O túmulo que se tornou passagem
Damanhur, que parecia apenas uma interrupção, transformou-se em lugar de memória. A sepultura do Abir Yaakov passou a receber peregrinos, especialmente em torno de sua hilulá. O homem que desejava ir a uma terra visitada por judeus do mundo inteiro tornou-se, ele mesmo, alguém a quem outros viajariam para visitar.
Não se deve confundir um túmulo de tzaddik com o objetivo de toda a subida. A santidade de Eretz Israel permanece singular. Mas a providência pode fazer de um ponto inesperado uma estação de despertar.
Há pessoas que rezam apenas quando chegam. Outras aprendem a rezar durante o caminho. O Abir Yaakov havia passado a vida transformando distância em saudade ativa: estudo, chesed, julgamento justo e lágrimas por Tzion.
Sua estrada não chegou a Jerusalém no mapa. Contudo, ela ensinou a gerações inteiras que ir para Jerusalém começa muito antes de atravessar uma fronteira.
Começa quando o coração já não aceita viver como se estivesse em casa no exílio.
Referências
- (Rabi Aharon Abuhatzeira, testemunho biográfico reproduzido nas introduções e coletâneas da família Abuhatzeira.)
- (Rabi Massoud Abuhatzeira, introdução a Alef Biná.)
- (Rabi Shlomo Chayun, introdução a Pituchei Chotam.)
- (ANU — Museu do Povo Judeu, verbete biográfico “Yaakov Abuhatzeira”.)
- (Devarim 34:1–5; Tehillim 137:5–6.)
