Há homens que assinam o nome para confirmar um documento. Rabi Avraham Azulai passou a assinar também para não esquecer.

Nascido em Fez, no Marrocos, no fim do século XVI, ele viveu anos de instabilidade e perseguição. Na introdução de Chesed LeAvraham, descreve sua saída em linguagem de gratidão: desejava recordar as bondades que Hashem lhe fizera e o modo como fora salvo da espada.

Deixar Fez significou abandonar o conhecido. A viagem rumo à Terra de Israel trouxe outro perigo: o mar.

O Chidá, Rabi Chaim Yosef David Azulai, descendente do mekubal, registra em Shem HaGedolim uma memória familiar. Rabi Avraham desembarcou de uma embarcação deixando nela os seus pertences. Logo depois, uma tempestade se levantou, o navio se partiu e o que estava a bordo se perdeu. Sua vida, porém, foi preservada.

Para marcar o resgate, passou a desenhar sua assinatura com a forma de um navio.

O que afundou e o que atravessou

As tradições biográficas mencionam a perda de bens e escritos durante a fuga. Não sabemos a extensão exata de tudo o que o mar levou. Sabemos o que chegou à outra margem: um homem, sua memória da Torá e a obrigação de reconstruir.

Essa diferença é decisiva. Um manuscrito pode afundar; a relação de um homem com a sabedoria que produziu o manuscrito ainda pode atravessar. Páginas são preciosas, mas não são a fonte da alma. Quando o recipiente se quebra, o serviço recomeça.

Rabi Avraham alcançou Eretz Israel e se estabeleceu em Hebron. Ali se dedicou ao estudo do Zohar e da tradição de Rabi Moshe Cordovero e do Arizal. Compôs comentários, organizou materiais cabalísticos e deixou uma obra que atravessaria séculos.

O mar não teve a última palavra sobre seus livros.

Uma assinatura contra o esquecimento

Por que repetir um navio a cada assinatura?

Porque a lembrança também precisa de forma. A Torá ordena recordar a saída do Egito todos os dias. Não basta ter sobrevivido; é necessário educar a consciência para reconhecer de onde veio a salvação.

O desenho do navio colocava o passado no presente. Cada vez que o Rav concluía uma carta ou documento, o traço dizia silenciosamente: eu não cheguei aqui sozinho.

O costume contém uma disciplina espiritual. Depois que o perigo passa, a mente tende a normalizar a vida. O extraordinário se dissolve na rotina. A pessoa atribui a travessia à própria habilidade e esquece quantas condições não estavam sob seu controle.

Rabi Avraham gravou a gratidão no próprio nome.

Chesed depois da tempestade

O título Chesed LeAvraham vem do profeta Michá: “Concederás verdade a Yaakov, bondade a Avraham”. Mas, no prefácio, o autor também liga seu trabalho à bondade que recebeu. O livro não nasce apenas de conhecimento. Nasce da consciência de uma dívida de gratidão.

Mais tarde, uma epidemia obrigaria o mekubal a deixar Hebron e buscar refúgio em Gaza. Outra vez, deslocamento. Outra vez, escrita. A vida que parecia sempre ameaçada por ruptura produziu uma obra organizada em fontes e correntes, como águas conduzidas para que não se percam.

Talvez por isso a imagem do navio seja tão adequada. Um navio não elimina o abismo. Ele ensina a atravessá-lo.

Há períodos em que nossas antigas páginas parecem submersas: planos, posses, lugares e certezas. A história de Rabi Avraham Azulai não promete que tudo será recuperado. Ela revela algo mais exigente: depois da perda, ainda é possível fazer da própria vida um documento de gratidão.

Sua assinatura não negava a tempestade. Dava a ela uma moldura.

E, dentro dessa moldura, não era o naufrágio que definia o nome. Era a mão que o Céu conduziu até a margem.

Referências

  • (Rabi Avraham Azulai, introdução a Chesed LeAvraham.)
  • (Rabi Chaim Yosef David Azulai, Shem HaGedolim, verbete “Rabi Avraham Azulai”.)
  • (Dov Zlotnick, “The Commentary of Rabbi Abraham Azulai to the Mishnah”, Proceedings of the American Academy for Jewish Research, vol. 40.)
  • (Michá 7:20.)