Antes de ser chamado Ben Ish Chai, ele era Yosef Chaim, um menino de sete anos na casa de Rabi Eliyahu Chaim, em Bagdá.

A tradição biográfica conta que brincava com a irmã quando caiu num poço profundo no pátio. A cena chegou às gerações sem a necessidade de enfeites. Um menino. Um poço. A distância entre a voz e quem poderia ouvi-la.

Ali, diante do perigo, Yosef Chaim fez uma promessa: se fosse salvo, dedicaria a vida ao estudo da Torá.

Ele foi retirado do poço.

Muitas promessas nascem quando o chão desaparece. Poucas continuam de pé quando o chão retorna. A grandeza dessa história não está apenas no resgate, mas nas décadas que vieram depois.

A promessa depois do medo

O menino passou a frequentar a biblioteca de seu pai e, mais tarde, estudou no Beit Zilka sob a direção de Rabi Abdullah Somech. Cresceu no coração da tradição babilônica, onde Guemará, halachá, piyyut e Cabalá não eram compartimentos isolados.

Quando seu pai faleceu, Yosef Chaim tinha cerca de vinte e cinco anos. Tornou-se a principal voz religiosa da comunidade de Bagdá, sem transformar a função em fonte de salário. Sustentava-se por meio de uma participação nos negócios da família e recusava remuneração pelo serviço público.

Durante aproximadamente cinquenta anos, ensinou diariamente. Aos Shabatot, suas grandes derashot uniam a parashá, a Aggadá, o sod e a halachá prática. O livro pelo qual ficou conhecido nasceu desse modo de ensinar: primeiro despertar o coração; depois colocar a ação em ordem.

Tudo isso pode ser lido como o prolongamento daquela promessa.

O poço dentro da página

Na Torá, o poço pode ser lugar de água, encontro e bênção. Também pode ser vazio e perigo. Yosef foi lançado num poço por seus irmãos. Yirmiyahu foi lançado numa cisterna. O poço torna visível uma condição da alma: estar abaixo, sem saída própria, dependente de uma ajuda que venha de cima.

O pequeno Yosef Chaim não transformou a salvação em sensação passageira. Ligou-a à Torá. Isso significa que cada página estudada depois seria também uma forma de agradecer.

Gratidão, nesse nível, não é apenas dizer “obrigado”. É permitir que o bem recebido mude a direção da vida.

O título Ben Ish Chai vem do versículo sobre Benayahu ben Yehoyada, “filho de um homem vivo”. O Rav deu a várias de suas obras nomes relacionados a essa figura bíblica: Ben Yehoyada, Benayahu, Rav Pe'alim. Em seus escritos, vida não é mera duração. Vida é ligação com a fonte divina e capacidade de fazer descer essa ligação até os detalhes.

Sair é apenas o começo

Quem é salvo de uma crise deseja fechar a lembrança e seguir adiante. A história do Ben Ish Chai propõe outra possibilidade: carregar a lembrança de modo fecundo.

Ele não permaneceu olhando para o poço. Também não viveu contando o próprio milagre como credencial. Estudou, ensinou, decidiu questões de halachá, escreveu para públicos diversos, compôs orações e falou a uma cidade inteira numa linguagem que estudiosos e pessoas simples podiam receber.

O poço não se tornou centro de sua biografia. Tornou-se direção.

Essa talvez seja a marca mais fina da promessa verdadeira. Ela não produz apenas um dia intenso. Produz uma forma de viver quando ninguém está olhando.

Um menino caiu num lugar de onde não podia sair sozinho. Um povo inteiro, anos depois, receberia dele caminhos para elevar a mesa, a tefilá, o Shabat e o estudo. Entre os dois momentos existe uma linha invisível: uma palavra dada no escuro e mantida à luz.

O resgate tirou Yosef Chaim do poço. A fidelidade à promessa fez nascer o Ben Ish Chai.

Referências

  • (Menachem Gerlitz, In Our Leaders' Footsteps, vol. 4, biografia de Chacham Yosef Chaim de Bagdá.)
  • (Chana Lewis, “The Ben Ish Chai — Chacham Yosef Chaim of Baghdad”, biografia editorial.)
  • (Rabi Yosef Chaim de Bagdá, Ben Ish Chai, introdução e derashot.)
  • (II Shmuel 23:20; Bereshit 37:23–24; Yirmiyahu 38:6.)