Em 1869, Rabi Yosef Chaim de Bagdá viajou para Eretz Israel. Já era a voz central de sua comunidade e carregava consigo uma ligação antiga com a Terra: apoiava seus habitantes, recebia seus emissários e fazia imprimir ali os próprios livros.

Mas uma terra amada à distância possui contornos diferentes quando os pés tocam seu pó.

O Ben Ish Chai visitou lugares santos, passou por Jerusalém e Hebron e encontrou mekubalim. A tradição de sua viagem também o coloca junto às sepulturas de tzaddikim na Galileia, entre elas a de Benayahu ben Yehoyada — a figura bíblica cujas palavras dariam nome a muitas de suas obras.

Foi-lhe oferecida a possibilidade de permanecer. Ainda assim, ele retornou ao Iraque.

Bagdá o esperava.

Voltar também pode ser uma missão

À primeira vista, regressar parece um movimento contrário à subida. Mas nem toda pessoa que deixa Eretz Israel está se afastando dela. Às vezes, alguém volta porque uma comunidade inteira ainda depende de sua voz.

Durante décadas, o Ben Ish Chai ensinaria na Tsallat L'ziri, a pequena sinagoga de Bagdá. Em ocasiões especiais, falaria na grande sinagoga da cidade. Suas derashot ligavam a parashá à Aggadá, a Cabalá à halachá e a inspiração ao gesto concreto.

Ele conhecia o perigo de uma espiritualidade que permanece no alto. Por isso seus ensinamentos descem até o modo de lavar as mãos, preparar o Shabat, pronunciar uma berachá e organizar o tempo. A luz precisa encontrar um recipiente.

Sua volta à Babilônia também foi uma descida desse tipo: levar para uma comunidade distante algo da consciência despertada na Terra.

E ele levou uma pedra.

Um pedaço de memória na entrada

As biografias registram que Rabi Yosef Chaim trouxe de Eretz Israel uma grande pedra e mandou colocá-la na entrada da sinagoga onde ensinava.

Não era relíquia para substituir a santidade da Terra. Era memória material. Quem atravessasse a entrada encontraria um fragmento silencioso apontando para outro lugar.

A escolha da porta importa. A pedra não foi escondida numa coleção particular. Ficou no limiar de uma casa de tefilá e estudo. Antes de ouvir a palavra do Rav, a pessoa passava por um sinal da Terra prometida.

Na Torá, pedras testemunham. Yaakov ergue uma pedra depois do sonho da escada. Doze pedras são retiradas do Jordão para que os filhos perguntem o que elas significam. Uma pedra pode permanecer calada e, ainda assim, obrigar uma geração a contar.

A pedra de Bagdá fazia uma pergunta semelhante: de onde vem a direção desta casa?

A terra dentro da voz

O amor do Ben Ish Chai por Eretz Israel não ficou limitado à lembrança de uma viagem. Ele escolheu imprimir ali seus livros e apoiou os emissários que arrecadavam recursos para os necessitados da Terra. Sua poesia mais conhecida, Va'amartem Ko LeChai, ligada a Rabi Shimon bar Yochai, atravessou comunidades e passou a ser cantada em Meron.

Assim, sua presença percorreu o caminho que ele próprio havia feito: de Bagdá à Terra de Israel e da Terra de Israel de volta às diásporas.

Existe uma diferença entre possuir uma pedra e permitir que a pedra nos possua. No primeiro caso, ela é objeto. No segundo, torna-se lembrança que orienta decisões.

O Ben Ish Chai voltou porque sua tarefa em Bagdá não havia terminado. A pedra dizia que voltar não significava esquecer. Era possível servir no lugar onde Hashem o havia colocado e, ao mesmo tempo, manter uma janela interior aberta para Tzion.

Talvez todo judeu no exílio reconheça algo dessa tensão. A vida exige presença onde estamos; a alma se recusa a tratar a distância como estado definitivo.

Na entrada da sinagoga, a pedra unia as duas coisas. Os pés pisavam Bagdá. A memória apontava para Jerusalém.

Referências

  • (Chana Lewis, “The Ben Ish Chai — Chacham Yosef Chaim of Baghdad”, biografia editorial.)
  • (Menachem Gerlitz, In Our Leaders' Footsteps, vol. 4, biografia de Chacham Yosef Chaim de Bagdá.)
  • (Rabi Yosef Chaim de Bagdá, Ben Ish Chai; Ben Yehoyada; piyyut Va'amartem Ko LeChai.)
  • (Bereshit 28:18–22; Yehoshua 4:1–7.)