Rabbah bar bar Hana narra viagens em que o mar deixa de obedecer às proporções domésticas. Marinheiros desembarcam sobre aquilo que julgam ser uma ilha e descobrem que era um peixe gigantesco; ondas erguem-se como muralhas; o deserto conserva sinais da geração que saiu do Egito (Bava Batra 73a–74a).

A leitura superficial oferece duas saídas igualmente preguiçosas: transformar tudo em reportagem náutica ou descartar tudo como fantasia. A Aggadá exige um terceiro caminho. Suas imagens vestem ensinamentos que não caberiam numa definição estreita. O mar é o domínio oculto; a terra é aquilo que já pode ser habitado pela consciência. Quando confundimos um ser profundo com uma superfície estável, acendemos fogo sobre o dorso do mistério e nos surpreendemos quando ele se move.

O tamanho espiritual das coisas

O Maharal ensina que as narrativas dos Sábios falam segundo a ordem interior da realidade. O exagero aparente denuncia a pequenez da medida que levamos ao texto. O Talmud não precisa pedir desculpas porque o peixe é maior do que nossa régua.

Rabbah retorna para contar. Essa é a disciplina da Aggadá: entrar no incomum sem perder o caminho de volta, recolher a imagem e oferecê-la àqueles que permaneceram na margem.

Referências

  • Talmud Bavli, Bava Batra 73a–74b.
  • Maharal de Praga, Be’er HaGolah, quarto poço.
  • Zohar, volume II, 48b, sobre mar e terra como graus de ocultamento e revelação.