“Ocultarei de Avraham o que estou fazendo?” (Bereshit 18:17). Os mensageiros haviam deixado a tenda de Mamre e voltado o rosto para Sedom. Avraham caminhava com eles, cumprindo a mitzvah de acompanhar os hóspedes. Então Adonay revelou o juízo que se aproximava das cidades da planície.

Avraham não recebeu essa revelação para contemplar de longe a queda dos perversos. O homem escolhido para ordenar a seus filhos que guardassem “o caminho de Adonay, praticando tzedakah e mishpat” deveria responder com tefilah. Ele permaneceu diante do Criador e intercedeu por uma cidade cuja maldade era grande, sem negar o clamor das vítimas e sem abandonar a esperança de que a presença dos justos pudesse suspender a destruição.

O conhecimento confiado a Avraham

Rashi explica que o Santo, bendito seja, amava Avraham e lhe havia dado a terra; não seria correto destruir aquelas cidades sem antes tornar conhecido Seu decreto (Rashi sobre Bereshit 18:17). A intimidade da aliança traz conhecimento, e o conhecimento traz responsabilidade.

Adonay afirma que Avraham se tornará uma nação grande e poderosa e que nele serão abençoadas as nações da terra. Em seguida declara: “Eu o conheci, para que ordene a seus filhos e à sua casa depois dele que guardem o caminho de Adonay” (Bereshit 18:18–19). Rashi ensina que “conhecer” é expressão de afeição. O amor divino está unido à missão de transmitir justiça e chesed.

Avraham deve formar uma casa que reconheça a diferença entre o santo e o profano, entre a justiça e a violência. Por isso, o juízo de Sedom não lhe é estranho. A aliança não fecha o tzadik em sua própria pureza; faz dele intercessor e mestre para as gerações.

O clamor que sobe de Sedom

Adonay diz que o clamor de Sedom e Amorah é grande e seu pecado, muito grave. A palavra za’akah, clamor, dirige o olhar para aqueles que sofreram sob a ordem da cidade. O juízo não surge de um capricho oculto; responde ao mal que clamava diante do Céu (Bereshit 18:20–21).

O profeta Yechezkel declara que a iniquidade de Sedom foi orgulho, abundância de pão e tranquilidade, sem que fortalecesse a mão do pobre e do necessitado (Yechezkel 16:49–50). A Guemará descreve leis perversas pelas quais seus habitantes protegiam a riqueza, puniam a hospitalidade e faziam da crueldade uma norma pública (Sanhedrin 109a–b).

A Torá nos ensina que a abundância é bênção quando se torna instrumento de tzedakah. Quando o pão existe e a mão permanece fechada, a bênção é profanada. Quando uma cidade converte o egoísmo em lei, seu pecado deixa de ser apenas a soma de falhas particulares e se torna rebelião organizada contra o Criador.

“Destruirás o justo com o perverso?”

Avraham aproximou-se e perguntou: “Destruirás também o justo com o perverso?” Rashi reúne nessa aproximação três disposições: guerra, conciliação e oração (Rashi sobre Bereshit 18:23). A tefilah de Avraham possui firmeza, súplica e busca de misericórdia, todas submetidas ao temor de Adonay.

Ele pede que, se houver cinquenta justos na cidade, o lugar seja poupado por causa deles. Depois pronuncia: “Longe de Ti fazer tal coisa, matar o justo com o perverso; acaso o Juiz de toda a terra não fará justiça?” (Bereshit 18:25). Avraham não impõe ao Criador uma medida exterior. Apela ao próprio atributo divino de justiça, sabendo que o Juiz verdadeiro distingue o inocente do culpado.

O Zohar aprofunda o movimento da oração ao dizer que Avraham se preparou para pedir e começou em cinquenta, entrada dos graus do entendimento, descendo até dez, termo inferior das gradações (Zohar, Vayera 15:218–223). A contagem da Torá não é mera insistência. Ela acompanha a descida ordenada da misericórdia até o limite em que ainda se pode encontrar uma comunidade de justos.

Pó e cinza

Depois de receber a resposta de que Sedom seria poupada por cinquenta justos, Avraham continua: “Eis que me atrevi a falar a Adonay, eu que sou pó e cinza” (Bereshit 18:27). A tradição relaciona “pó” e “cinza” às provações de Avraham: pó diante dos reis e cinza diante da fornalha (Bereshit Rabbah 49:11). Sua humildade não é negação da missão recebida, mas reconhecimento de que toda força procede do Criador.

Avraham pergunta por quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte e dez. A cada etapa, Adonay afirma que não destruirá se encontrar o número pedido. Rashi explica os números em relação às cinco cidades e ensina por que Avraham não prosseguiu abaixo de dez: na geração do Dilúvio, oito pessoas justas não haviam bastado para salvar o mundo, e o Santo, bendito seja, completava o número com elas (Rashi sobre Bereshit 18:28–32).

Rabi Yitzchak ensina no Zohar que Avraham parou em dez, alusão aos dez dias de teshuvah entre Rosh Hashaná e Yom Kippur; abaixo desse número, não se encontrava o mesmo lugar para o retorno que poderia sustentar a cidade (Zohar, Vayera 15:223). O juízo sobre Sedom permanece, assim, ligado à exigência de teshuvah.

Misericórdia que não nega o juízo

Avraham não declara Sedom inocente. O clamor continua verdadeiro, a crueldade continua grave e os culpados devem responder por seus atos. Sua intercessão procura os justos e pede que a cidade seja preservada por causa deles. Justiça e misericórdia não são confundidas, mas apresentadas em sua ordem correta.

A misericórdia da Torá não exige que a vítima retorne ao alcance daquele que a feriu. É necessário impedir o dano, proteger o inocente e estabelecer mishpat. Ao mesmo tempo, o coração que serve a Adonay não se alegra com a destruição e não deixa de pedir teshuvah.

Interceder é reconhecer que nenhuma alma nos pertence e que o juízo final não foi entregue à nossa ira. Podemos afastar o agressor, testemunhar a verdade e cumprir todas as medidas necessárias, enquanto pedimos que o Criador preserve os inocentes e conduza os pecadores ao arrependimento.

Adonay lembrou-se de Avraham

Avraham encerrou sua oração, Adonay seguiu Seu caminho e o patriarca retornou ao seu lugar. Não havia dez justos capazes de sustentar Sedom. O juízo seria executado. Contudo, quando as cidades foram destruídas, “Deus lembrou-se de Avraham e retirou Lot do meio da destruição” (Bereshit 19:29).

Rashi explica que Adonay se lembrou de Lot ter guardado silêncio no Egito quando Avraham disse que Sarah era sua irmã. Lot poderia tê-lo denunciado, mas não o fez; esse mérito foi lembrado (Rashi sobre Bereshit 19:29). A lembrança de Avraham e o mérito concreto de Lot aparecem unidos no resgate.

A tefilah não concedeu a Avraham domínio sobre o decreto, porém participou da salvação possível. Essa é uma medida para nossa avodat Hashem: orar sem exigir, suplicar sem negar a justiça e permanecer diante do Criador até que a responsabilidade da palavra tenha sido cumprida.

Avraham ensina sua casa a praticar tzedakah e mishpat, escuta o clamor de uma cidade distante e pede misericórdia pelos justos. A verdadeira separação da perversidade não é indiferença. O tzadik distingue com clareza o bem e o mal e, precisamente por isso, sabe que toda vida deve ser colocada diante do Juiz de toda a terra em temor, compaixão e oração.

Leituras relacionadas

Referências

  • Bereshit 18:16–33.
  • Bereshit 19:29.
  • Rashi sobre Bereshit 18:17–19.
  • Rashi sobre Bereshit 18:23–25 e 18:28–32.
  • Rashi sobre Bereshit 19:29.
  • Yechezkel 16:49–50.
  • Talmud Bavli, Sanhedrin 109a–b.
  • Bereshit Rabbah 49:11.
  • Zohar, Vayera 15:218–223.