“Adonay apareceu a ele nos carvalhos de Mamre, enquanto ele estava sentado à entrada da tenda, no calor do dia” (Bereshit 18:1). Avraham Avinu acabara de cumprir a brit milah, o sinal da aliança inscrito na carne, e encontrava-se no terceiro dia, quando a dor é mais intensa. O Santo, bendito seja, veio visitá-lo, ensinando desde então a mitzvah de bikur cholim, a visita aos enfermos (Rashi sobre Bereshit 18:1; Bava Metzia 86b).

Avraham ergueu os olhos, viu três homens e correu ao encontro deles. A manifestação da Shechinah não o afastou dos deveres do chesed; revelou-lhe com maior nitidez o serviço que estava diante de sua tenda. O mesmo homem que recebia a presença do Criador inclinou-se perante viajantes e pediu que aceitassem água, pão e repouso.

A entrada da tenda

A Torá situa Avraham à entrada da tenda. Sua casa estava orientada para fora, pronta para reconhecer aquele que necessitava de acolhimento. Rashi ensina que o Santo, bendito seja, tornou o dia extraordinariamente quente para que os viajantes não o incomodassem durante a recuperação; porém, ao ver o sofrimento de Avraham por não encontrar hóspedes, trouxe os anjos em forma humana (Rashi sobre Bereshit 18:1–2).

Essa dor era a falta de uma mitzvah que havia se tornado parte de seu próprio modo de viver. Avraham não praticava hachnasat orchim, a recepção de hóspedes, apenas quando isso lhe era cômodo. Mesmo enfermo, permanecia atento à possibilidade de servir ao Criador por meio das criaturas que Ele fizera passar diante de sua casa.

A brit milah e a hospitalidade aparecem unidas na mesma passagem. A aliança santifica o corpo, e o corpo santificado corre para cumprir chesed. A Torá não separa a elevação espiritual do pão oferecido, da água levada e da sombra preparada. A avodat Hashem alcança a totalidade da vida.

Três mensageiros, três missões

Os visitantes eram Michael, Gabriel e Rafael. Michael veio anunciar a Sarah o nascimento de Yitzchak; Rafael veio curar Avraham; Gabriel foi enviado para executar o juízo sobre Sedom. Um anjo não realiza duas missões independentes, pois cada mensageiro é inteiramente ordenado ao encargo recebido do Alto (Rashi sobre Bereshit 18:2).

A aparência humana dos mensageiros não diminuiu sua natureza angélica, nem sua natureza dispensou Avraham de recebê-los como hóspedes. Ele não foi informado de antemão sobre a identidade deles. Viu homens ao longe e respondeu segundo a mitzvah. Assim, a Torá nos ensina que o chesed não deve depender do conhecimento de méritos ocultos daquele que chega.

Avraham ofereceu “um pouco de água” e “um pedaço de pão”, mas ordenou a Sarah que preparasse bolos de farinha fina, correu ao gado, escolheu um bezerro tenro e serviu coalhada e leite. Nossos Sábios observam que os justos dizem pouco e fazem muito (Bava Metzia 87a). A palavra não é usada para engrandecer o benfeitor, mas para tornar leve a aceitação do hóspede; a ação, porém, é realizada com generosidade.

Receber hóspedes diante da Shechinah

Avraham pediu a Adonay que não passasse enquanto ele corria para atender os visitantes. Dessa ordem, a Guemará aprende que receber hóspedes é maior que receber a face da Shechinah (Shabbat 127a). Não há nisso afastamento do Criador. Há o reconhecimento de que Sua presença exige do homem uma resposta concreta.

Quem se volta verdadeiramente a Adonay não pode usar a oração como abrigo contra a mitzvah que se apresenta. A tefilah purifica o olhar para que ele reconheça a fome, o cansaço e a solidão. O estudo da Torá disciplina as mãos para que sirvam sem humilhar. A santidade não é uma região separada da necessidade humana; é a ordem que faz cada necessidade ser tratada diante do Criador.

A hospitalidade, por sua vez, deve permanecer dentro da ordem da Torá. Chesed não significa imprudência nem abandono dos limites que protegem uma família. Avraham ofereceu aquilo que os hóspedes precisavam e acompanhou o serviço com recato, rapidez e honra. A mitzvah é cumprida com sabedoria, não pela dissolução das responsabilidades.

“Onde está Sarah, tua mulher?”

Depois da refeição, os visitantes perguntaram: “Onde está Sarah, tua mulher?” Avraham respondeu: “Eis que está na tenda”. Rashi mostra que a pergunta tornou conhecida a modéstia de Sarah e também permitiu que lhe fosse entregue o cálice da bênção (Rashi sobre Bereshit 18:9). A matriarca não é figura secundária na promessa. É em seu corpo e em sua casa que Yitzchak será formado.

Michael anunciou: “Certamente voltarei a ti no tempo determinado, e eis que Sarah, tua mulher, terá um filho” (Bereshit 18:10). Sarah escutava à entrada da tenda. Avraham e Sarah eram idosos, e o caminho natural para a maternidade havia cessado. Diante disso, Sarah riu em seu íntimo.

Adonay perguntou a Avraham por que Sarah rira e declarou: “Acaso existe algo demasiado difícil para Adonay? No tempo determinado voltarei a ti, e Sarah terá um filho” (Bereshit 18:13–14). A promessa não se sustenta nas possibilidades que a carne consegue calcular. Ela se sustenta na palavra do Criador, que fixou o tempo e ordenou que o filho se chamasse Yitzchak, יצחק, nome ligado ao riso (Bereshit 17:19).

A verdade e a paz da casa

Sarah havia pensado: “Meu senhor é velho”. Ao repetir suas palavras a Avraham, o Santo, bendito seja, disse que Sarah falara de sua própria velhice. A Guemará ensina que é permitido alterar uma expressão em favor da paz, e Rashi mostra essa medida na própria fala divina (Rashi sobre Bereshit 18:13; Bava Metzia 87a).

A Torá é a Torá da verdade, e justamente por isso não transforma a verdade em instrumento de crueldade. Há informações que devem ser pronunciadas para estabelecer justiça, proteger o inocente e impedir o pecado. Há também palavras cuja repetição nada corrige e apenas fere. A paz entre marido e mulher é parte da edificação santa da casa, e a língua deve servir a essa edificação.

O anúncio de Yitzchak chega, portanto, acompanhado por duas formas de serviço doméstico: o chesed oferecido aos hóspedes e o cuidado com a paz entre Avraham e Sarah. A continuidade de Israel não nasce num espaço abstrato, mas dentro de uma tenda regida por mitzvot.

O tempo marcado pelo Criador

A expressão ka’et chayah, “no tempo determinado”, estabelece que o nascimento ocorrerá na hora fixada pelo Alto. A espera de Avraham e Sarah não foi esquecida. Cada etapa os conduziu até o filho da promessa, aquele com quem a aliança seria confirmada (Bereshit 17:21; 21:1–3).

O Midrash compara essa renovação a alguém que leva duas peças ao artesão e pergunta se ele pode restaurá-las; aquele que é capaz de produzi-las desde o início certamente pode repará-las. O Criador, que formou Avraham e Sarah, também podia restituir-lhes a força necessária para o nascimento de Yitzchak (Bereshit Rabbah 48:20). A promessa pertence ao Senhor da criação e não aos limites que a criatura reconhece em si.

O riso de Sarah diante do impossível será transformado no riso do nascimento: “Deus fez riso para mim; todo aquele que ouvir rirá comigo” (Bereshit 21:6). O nome Yitzchak conserva as duas margens do caminho — o espanto diante da promessa e a alegria de seu cumprimento — para que Israel recorde que sua existência procede da fidelidade de Adonay.

A passagem de Mamre orienta nossa avodat Hashem. Devemos visitar o enfermo, receber o hóspede, servir com generosidade, preservar a paz da casa e confiar no tempo estabelecido pelo Criador. A tenda de Avraham tornou-se lugar de revelação porque estava aberta ao chesed e submetida à aliança. Ali, entre água, pão e palavras de paz, foi anunciado o filho que daria continuidade à santidade de Israel.

Leituras relacionadas

Referências

  • Bereshit 17:15–22.
  • Bereshit 18:1–15.
  • Bereshit 21:1–7.
  • Rashi sobre Bereshit 18:1–2.
  • Rashi sobre Bereshit 18:9–10 e 18:13.
  • Talmud Bavli, Shabbat 127a.
  • Talmud Bavli, Bava Metzia 86b–87a.
  • Bereshit Rabbah 48:20.