O nome mais preciso que o ser humano pode dar ao Infinito começa por admitir que nenhum nome consegue contê-Lo. Ein Sof, אֵין סוֹף (Ein Sof, “sem fim”), não procura definir Deus como quem mede um objeto; a expressão protege a consciência contra a ilusão de que o Criador possa caber dentro das categorias pelas quais Suas criaturas compreendem o mundo. Quando a mente chega ao limite de seu alcance, ela não encontra um vazio. Ela encontra a fronteira entre aquilo que pode ser conhecido e Aquele de quem todo conhecimento recebe existência.
O rei David declara: גָּדוֹל ה׳ וּמְהֻלָּל מְאֹד, וְלִגְדֻלָּתוֹ אֵין חֵקֶר, “Grande é o Eterno e extremamente louvado; Sua grandeza é insondável” (Tehilim/Salmos 145:3). O profeta Yeshayahu acrescenta que Sua inteligência não pode ser investigada até o fim (Yeshayahu/Isaías 40:28). A Torá Escrita estabelece, assim, a verdade fundamental: tudo o que existe possui medida, limite e definição; o Criador concede medida às coisas sem receber de nenhuma delas uma medida para Si.
Essa afirmação não afasta Deus do mundo. Ao contrário, permite compreender como Ele pode estar presente em cada detalhe sem ser reduzido a detalhe algum. Se o Criador fosse apenas o maior ser dentro da realidade, ainda pertenceria à mesma escala de Suas criaturas. Ein Sof anuncia algo mais radical: a própria escala, o espaço, o tempo, a forma e a possibilidade de existir dependem d’Ele.
O pensamento diante daquilo que não possui fim
O Patach Eliyahu, registrado no Tikkunei Zohar 17a, começa dirigindo-se ao “Mestre dos mundos” e declara: אַנְתְּ הוּא חַד וְלָא בְּחֻשְׁבָּן, “Tu és Um, mas não segundo uma contagem”. Uma unidade contada é a primeira parte de uma série; a Unidade divina antecede a própria possibilidade de contar. Por isso, o mesmo texto afirma: לֵית מַחֲשָׁבָה תְּפִיסָא בָךְ כְּלָל, “nenhum pensamento Te apreende de modo algum”. O pensamento é verdadeiro e necessário, mas continua sendo um recipiente criado. Ele conhece conforme sua forma, enquanto o Criador não recebe forma de nenhum recipiente.
O Zohar, em Bereshit 12:137, descreve o Infinito como aquilo que não deixa um traço apreensível ao pensamento. Essa linguagem não destrói a inteligência; ela a purifica. Existe uma diferença entre pensar sobre a revelação de Deus e imaginar que esse pensamento capturou Sua Essência. A primeira atitude é estudo da Torá. A segunda transforma uma ideia humana num ídolo invisível.
É por isso que a tradição pode falar de Deus com uma riqueza extraordinária de Nomes, atributos e imagens, preservando ao mesmo tempo Sua transcendência absoluta. Cada Nome revela uma maneira pela qual o Criador Se relaciona com os mundos. Nenhum Nome esgota Aquele que Se faz conhecido por meio dele. O Nome é verdadeiro como revelação e insuficiente como limite.
Como o Infinito se revela sem deixar de ser infinito
O Etz Chaim abre seu ensinamento declarando que, antes da emanação dos seres emanados e da criação dos mundos, a luz simples do Or Ein Sof, אוֹר אֵין סוֹף (Or Ein Sof, “Luz do Infinito”), preenchia toda a realidade. “Antes” não deve ser lido apenas como uma data, pois o próprio tempo pertence à Criação. Rabi Chaim Vital registra em nome do Arizal uma anterioridade de ordem: nada possui existência própria diante da presença ilimitada do Criador.
Quando o Arizal descreve o tzimtzum, a linha de luz e a formação dos mundos, ele sistematiza a maneira pela qual o ilimitado concede lugar ao limitado sem abandonar sua unidade. O mundo pode perceber-se como realidade particular porque a revelação divina chega a ele segundo medida, ordem e recipiente. Ainda assim, a ocultação não produz um território fora de Deus. Ela produz a condição pela qual uma criatura finita pode existir, escolher e responder.
O Tanya, em Shaar HaYichud VehaEmuná 9, explica que mesmo Chochmá, o princípio mais elevado da sabedoria revelada, é considerada como ação material diante do Santo, Bendito seja. A distância entre a inteligência humana e a sabedoria divina não é comparável à diferença entre uma pessoa sábia e outra menos instruída. Ambas continuam no interior da categoria “sabedoria”. Entre o Criador e toda categoria criada não existe proporção. Daqui aprendemos por que a Cabalá utiliza a linguagem das Sefirot e, no mesmo movimento, insiste que nenhuma Sefirá contém a Essência divina.
Ein Sof, Or Ein Sof e Sefirot
Três expressões precisam permanecer distintas. Ein Sof aponta para a infinitude divina acima de toda apreensão. Or Ein Sof descreve a revelação ilimitada que procede d’Ele, sem ser uma segunda divindade nem uma matéria luminosa. As Sefirot são os modos ordenados pelos quais a revelação pode ser recebida e comunicada nos mundos.
Pense numa luz atravessando vitrais de cores diferentes. A comparação ajuda a compreender que a diversidade aparece no recipiente, mas ela ainda é limitada: Deus não é uma lâmpada, Sua luz não é radiação e as Sefirot não são pedaços coloridos do Criador. A imagem serve enquanto ensina que a multiplicidade dos efeitos não divide a unidade da Fonte. Quando começa a materializar aquilo que pretende explicar, precisa ser deixada para trás.
O Patach Eliyahu chama as Sefirot de tikkunim, ordenações pelas quais os mundos são conduzidos. Deus está “dentro” delas como força que lhes concede realidade e “além” delas porque não é definido por sua estrutura. Esse duplo ensinamento impede dois erros opostos: imaginar um Deus distante que abandonou o mundo ou confundir o mundo com Deus. A presença divina sustenta tudo, mas nada do que é sustentado se torna o Sustentador.
A avodá que começa no limite
Ein Sof não é uma licença para falar de uma energia vaga que confirma qualquer desejo humano. É o nome de uma disciplina espiritual. Se Deus ultrapassa toda projeção, então aproximar-se d’Ele exige renunciar à tentativa de transformar a vontade divina numa extensão da nossa. O Infinito não existe para tornar infinito o ego; Ele revela o quanto o ego é pequeno e, justamente por isso, capaz de servir a algo maior do que si mesmo.
Perceba o que acontece na oração. A pessoa utiliza palavras definidas, horários definidos e uma ordem recebida. É dentro desses limites que ela se volta Àquele que não possui limite. A forma não aprisiona o Infinito; ela prepara a criatura para encontrá-Lo sem confundir emoção com revelação. O recipiente é finito, mas a fidelidade com que ele é construído permite que uma luz maior habite a vida concreta.
Daqui aprendemos que humildade não é pensar pouco de si. É saber que o pensamento não é a medida de toda a realidade. Uma pessoa pode estudar profundamente, formular ideias precisas e ainda permanecer ajoelhada diante do Mistério. Quando o conhecimento produz reverência, ele encontrou sua função. Quando produz a sensação de posse sobre Deus, perdeu a Fonte que pretendia conhecer.
Continue a investigação
- Or: por que a Cabala fala tanto em luz?
- Sefirot: o que são e como revelam a ordem da Criação?
- O que é a Cabala judaica?
Fontes verificáveis
- Tehilim 145:3 e Yeshayahu 40:28.
- Tikkunei Zohar 17a, Patach Eliyahu.
- Zohar, Bereshit 12:137.
- Etz Chaim 1:1:1–5.
- Tanya, Shaar HaYichud VehaEmuná 9:4.
