O primeiro Nome de Deus revelado pela Torá é אֱלֹהִים (Elohim, também escrito Elokim ou Elocim em português): “No princípio, Elohim criou os céus e a terra” (Bereshit/Gênesis 1:1). Antes que exista uma criatura capaz de reivindicar poder, já existe Aquele que concede existência a todos os poderes. O sol ilumina, a água fecunda, o fogo transforma, a gravidade reúne, a inteligência escolhe. Nenhuma dessas forças é dona de si. Cada uma recebe de Elohim sua medida, sua continuidade e o limite além do qual não pode passar.
Por isso, traduzir Elohim apenas por “Deus” é correto, mas ainda não revela toda a intenção exigida pela tradição. O Shulchan Aruch determina que, ao pronunciar esse Nome numa bênção, a pessoa tenha em mente que Ele é תקיף, בעל היכולת ובעל הכוחות כולם, forte, Todo-Poderoso e Dono de todas as forças (Orach Chayim 5:1). Essa formulação haláchica não é um detalhe para especialistas. Ela treina o coração a não atribuir independência absoluta a nada do que acontece no mundo.
O Nome que abre a Criação
O primeiro capítulo de Bereshit é organizado por dez enunciações. Repetidamente, “Elohim disse”, e a realidade recebeu forma. A Mishná ensina que o mundo foi criado por dez enunciações para revelar a gravidade moral de destruí-lo e o mérito de sustentá-lo (Pirkei Avot 5:1). O Nome associado a essa arquitetura é Elohim porque criar um mundo habitável exige distinção, medida e limite: luz e escuridão, águas superiores e inferiores, mar e terra, dia e noite, espécie e espécie.
Na linguagem das Sefirot, essa potência de delimitar está ligada a Guevurá, força e contenção, e a Din, julgamento. Julgar significa colocar cada realidade em sua justa medida. Se o fluxo fosse recebido sem recipiente, não haveria mundo, apenas anulação diante da Fonte. Elohim permite que cada criatura exista como criatura e cumpra sua função específica.
O Midrash ensina que o Santo, Bendito seja, associou o atributo da misericórdia ao atributo do julgamento na constituição do mundo (Bereshit Rabbah 12:15). Não existem dois governos. A misericórdia não derrota um poder hostil chamado justiça, nem a justiça interrompe a bondade divina. O mesmo Deus conduz o mundo por modos diferentes e inseparáveis. É por isso que Bereshit 2:4 reúne os Nomes YHVH Elohim: a medida recebe vida da misericórdia, e a misericórdia encontra uma forma capaz de permanecer.
Elohim e a Natureza
A Chassidut preserva uma correspondência transmitida pelos cabalistas: אֱלֹהִים (Elohim) e הַטֶּבַע (haTeva, “a Natureza”) possuem o mesmo valor numérico, 86. O Tanya explica que Elohim é o Nome de Guevurá e tzimtzum, o ocultamento que encobre a luz criadora. Por isso, o mundo parece existir e conduzir-se “pela Natureza” (Shaar HaYichud VehaEmuná 6).
Essa equivalência não transforma Deus na Natureza. Ela ensina exatamente o contrário: aquilo que chamamos natureza é a regularidade com que a vontade divina se veste. Uma semente germina segundo processos observáveis; a chuva obedece a ciclos; o corpo possui sistemas. A constância desses caminhos permite conhecimento, trabalho e responsabilidade. O milagre permanente torna-se tão fiel que o ser humano pode esquecer Quem o mantém.
O Baal Shem Tov lê “Para sempre, Eterno, Tua palavra permanece firmada nos céus” (Tehilim/Salmos 119:89) como uma afirmação de criação contínua. As letras da ordem “Haja um firmamento” permanecem investidas nos céus, conferindo-lhes existência a cada instante. O Tanya registra esse ensinamento no início de Shaar HaYichud VehaEmuná. Natureza, então, não é ausência de Deus; é a fidelidade do Criador ocultando-Se dentro da continuidade de Sua própria palavra.
Aquele que Se senta para governar
O salmista declara: “Elohim reina sobre as nações; Elohim Se senta sobre Seu santo trono” (Tehilim/Salmos 47:9). Sentar-se, quando dito de Deus, não descreve corpo ou postura. O Rambam estabelece que expressões desse tipo comunicam estabilidade e governo conforme a capacidade da linguagem humana (Hilchot Yesodei HaTorá 1:9). O trono manifesta soberania; o ato de sentar manifesta um governo que não é surpreendido, deslocado ou ameaçado.
Essa imagem alcança sua intensidade em Rosh Hashaná. O mundo inteiro passa diante do Criador, criatura por criatura (Mishná Rosh Hashaná 1:2). O Zohar Chadash descreve o Santo, Bendito seja, sentando-Se para julgar o mundo, enquanto Vayikrá Rabbah ensina que o toque do shofar desperta a passagem do Trono do Julgamento ao Trono da Misericórdia. Não há mudança na Essência divina. Há uma mudança na relação da criatura com o influxo que recebe: a Teshuvá torna o recipiente capaz de encontrar compaixão dentro da própria justiça.
O Arizal aprofunda esse segredo ao ensinar que os sons fragmentados do shofar correspondem ao rigor, enquanto a tekiá contínua o envolve em misericórdia. O sopro humano atravessa o Nome Elohim e revela em seu interior as configurações do Nome YHVH (Pri Etz Chaim, Shaar HaShofar 2). O julgamento não é removido do governo divino; ele é reconduzido à sua raiz misericordiosa.
Nenhuma força fora do Rei
Conhecer Elohim altera a maneira de olhar para causas e poderes. O médico trata, mas não é dono da vida. O dinheiro abre possibilidades, mas não decreta o valor de uma pessoa. Governos exercem autoridade, mas não possuem soberania absoluta. A natureza opera com regularidade, mas não é uma divindade muda. Até a força que parece adversa continua limitada pelo Dono de todas as forças.
Essa consciência não dispensa ação. Pelo contrário, torna-a mais séria. Se cada capacidade foi confiada por Elohim, inteligência, corpo, influência e recursos precisam prestar contas ao propósito para o qual existem. Coroar o Rei significa ordenar as forças interiores: fazer com que desejo, palavra, trabalho e poder deixem de competir pelo trono e passem a servir à vontade divina.
Continue a investigação
- O Trono Divino e o Kisse HaKavod
- Os elementos primordiais: Águas Superiores, Céus e as Sete Terras
- Tzimtzum: ocultamento, criação e presença divina
Fontes verificáveis
- Bereshit/Gênesis 1:1–31 e 2:4.
- Pirkei Avot 5:1 e Bereshit Rabbah 12:15.
- Shulchan Aruch, Orach Chayim 5:1.
- Tehilim/Salmos 47:9 e 119:89.
- Mishnê Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 1:9.
- Tanya, Shaar HaYichud VehaEmuná 1 e 6.
- Mishná Rosh Hashaná 1:2 e Vayikrá Rabbah 29:3.
- Pri Etz Chaim, Shaar HaShofar 2.
