O servo de Yeshayahu não está à espera de que uma missão cristã lhe forneça identidade. O próprio profeta chama Israel de servo do Eterno, e Rashi conduz nossa leitura a partir dessa relação. Veja, antes de tudo, onde o trecho começa: Yeshayahu 53 não começa no capítulo 53. A passagem se abre em Yeshayahu 52:13: “Eis que Meu servo prosperará”. Logo depois, reis e nações ficam espantados diante de alguém que antes fora desfigurado, desprezado e considerado castigado por Deus, mas que finalmente é elevado. A pergunta sobre a identidade do servo precisa nascer desse cenário, não de uma frase destacada de seu livro.

O próprio Yeshayahu fornece a chave: עַבְדִּי (avdi) significa “Meu servo”. Em diferentes passagens, Deus chama Israel e Yaakov de “Meu servo”: “Tu, Israel, Meu servo, Yaakov, a quem escolhi”; “Agora ouve, Yaakov, Meu servo”; “Lembra-te destas coisas, Yaakov e Israel, pois és Meu servo”. Quando chegamos à passagem de 52:13–53:12, portanto, não encontramos um personagem sem história. Ele desenvolve a história do povo que carregou desprezo entre as nações e que, ao ser restaurado, obriga essas nações a reconsiderarem seu julgamento.

Quem está falando?

Uma leitura atenta distingue o servo daqueles que falam sobre ele. Em Yeshayahu 52:15, reis fecham a boca diante do que contemplam. Em seguida surge a confissão: “Quem acreditou no que ouvimos?”. O plural continua: “Ele carregou nossas enfermidades”; “nós o considerávamos ferido”; “por causa de nossas transgressões”.

Rashi entende que as nações do mundo, ao testemunharem a elevação de Israel, reconhecem que interpretaram seu sofrimento de maneira falsa. Durante séculos, o povo judeu foi apresentado como rejeitado, amaldiçoado e merecedor da violência que sofria. No momento de sua vindicação, os próprios perseguidores percebem que o servo não era abandonado por Deus. A dor que lhe impuseram revelava as transgressões daqueles que o feriram.

Como um povo pode aparecer no singular?

O Tanakh fala muitas vezes de uma coletividade como uma pessoa. Israel é chamado de filho: “Meu filho primogênito, Israel”. Yaakov designa ao mesmo tempo o patriarca e seus descendentes. A cidade de Yerushalayim é apresentada como uma mulher. O singular não obriga o texto a tratar de um indivíduo isolado; pode reunir uma história coletiva numa só figura.

Isso explica por que o servo pode sofrer, ser humilhado e depois ver descendência, prolongar seus dias e prosperar. Yeshayahu descreve a continuidade de Israel através daquilo que parecia ser sua morte histórica. Povos tentaram sepultá-lo, mas o servo permaneceu vivo.

O singular não é uma dificuldade que obrigue a abandonar essa leitura. Se alguém reconhece Israel como “Meu filho primogênito” em Shemot 4:22, já reconheceu que um povo pode ser designado como uma pessoa. Exigir que a gramática esqueça essa possibilidade apenas quando chegamos a Isaías 53 seria dar ao mesmo idioma duas regras, conforme a conveniência do argumento.

Sofrer pelos pecados não significa pagar a culpa do outro

O sofrimento de um justo pode despertar, reparar e transformar pessoas ao seu redor. A Torá conhece responsabilidade coletiva, consequências compartilhadas e o poder espiritual do tzadik. Mas isso não significa que a culpa moral de um homem seja transferida juridicamente para outro por meio de sua morte.

Yechezkel 18 afirma que o filho não carregará a culpa do pai e o pai não carregará a culpa do filho. Devarim 24:16 estabelece que cada pessoa responde por seu próprio pecado. Teshuvá, confissão, restituição e retorno a Deus formam o caminho da expiação. O servo pode sofrer por causa das transgressões alheias, especialmente quando essas transgressões são cometidas contra ele, sem se tornar um sacrifício humano que substitui a responsabilidade do pecador.

E as leituras messiânicas dos sábios?

A tradição preserva aplicações messiânicas dessa passagem. O Targum Yonatan introduz Yeshayahu 52:13 com a expressão “Meu servo, o Messias”. O Talmud, em Sanhedrin 98b, relaciona “certamente ele carregou nossas enfermidades” a um dos nomes do Messias. Também são nossas fontes, e integram o ensinamento que recebemos.

Ao mesmo tempo, uma aplicação messiânica não transforma automaticamente todos os versos numa biografia literal de uma pessoa específica. A Torá é estudada em sua profundidade: o peshat e o derash não são religiões concorrentes, mas modos de penetrar o ensinamento recebido. A referência a Israel e o ensinamento sobre o Messias nos conduzem à redenção do mesmo povo e à fidelidade à mesma aliança.

Rashi enfatiza Israel diante das nações. O Targum e o Talmud aplicam elementos ao Messias. Essas leituras pertencem à mesma Torá porque o Messias não está separado de Israel: ele reúne a vocação do povo e a conduz à plenitude. Entenda bem: “Messias” não é sinônimo antecipado de “Jesus”. O Targum diz מְשִׁיחָא (Meshicha, Messias); não diz Jesus de Nazaré. Acrescentar mentalmente esse nome e depois anunciá-lo como descoberta no original é colocar a resposta dentro da pergunta. A encarnação divina e a Trindade tampouco aparecem ali.

O servo não pode ser arrancado de Israel

Yeshayahu 53 não existe para oferecer uma senha oculta que anule o restante do Tanakh. Seu servo carrega o vocabulário, a eleição e a história de Israel. Mesmo quando a tradição percebe nele a luz do Messias, trata-se do Messias de Israel, ligado à Aliança, à Torá, à reunião dos exilados e à revelação do Reino Divino.

A leitura de Rashi nos põe diante de uma inversão profunda: aqueles que julgavam o servo abandonado precisam reconhecer o erro de seu próprio julgamento. Por isso, sua humilhação não prova que o Eterno revogou a aliança. A elevação de Israel revela justamente o contrário. Transformar esse cântico num argumento para afastar Israel da Torá é pedir ao servo que abandone a fidelidade cuja permanência o profeta anuncia.

Continue a investigação em O Messias no Tanakh segundo o Judaísmo, Quem foi Yeshu? e A unidade divina no Judaísmo e a ideia de Trindade.

Fontes verificáveis

  • Yeshayahu 41:8-9; 44:1-2, 21; 49:3 — Israel e Yaakov identificados como servo do Eterno.
  • Yeshayahu 52:13-53:12 — o cântico do servo em sua unidade literária.
  • Rashi sobre Yeshayahu 52:13; 53:1-12 — leitura do servo como Israel diante das nações.
  • Shemot 4:22 — Israel como filho primogênito de Deus.
  • Devarim 24:16; Yechezkel 18:20-23 — responsabilidade pessoal e retorno do pecador.
  • Targum Yonatan sobre Yeshayahu 52:13-53:12 — aplicação messiânica da passagem.
  • Sanhedrin 98b — aplicação de Yeshayahu 53:4 a um nome do Messias.
  • Bamidbar 23:9; Devarim 32:9-10 — Israel como povo singular e porção do Eterno.