A identidade do Messias é determinada pela Torá, e Jesus não cumpriu aquilo que ela estabelece. O termo מָשִׁיחַ (Mashiach, ungido) designa o rei da Casa de David que restaurará o reino, reunirá os dispersos e fortalecerá a observância dos mandamentos. É assim que o Rambam apresenta a promessa em Hilchot Melachim 11, dando forma precisa ao ensinamento dos profetas. Veja que a ordem importa: primeiro recebemos a medida; depois examinamos o candidato. Inverter esse movimento significa escolher uma pessoa e exigir que a Torá se acomode a ela.
Quando o assunto é Jesus de Nazaré, chamá-lo de Yeshua não inaugura outro personagem. O próprio texto hebraico do Rambam emprega ישוע הנוצרי, Yeshua HaNotzri. O suposto resgate de um Yeshua que nada teria a ver com Jesus tropeça antes mesmo de terminar o nome. Trocar a placa da porta não muda quem mora dentro.
Sanhedrin 43a: a passagem sem maquiagem
A Guemará registra a seguinte unidade narrativa. Tradução própria do texto hebraico-aramaico, sem cortes dentro do trecho citado:
E um arauto sai diante dele. Diante dele, sim; antes disso, não. Mas não foi ensinado: na véspera de Pessach suspenderam Yeshu HaNotzri, e um arauto saía diante dele durante quarenta dias: “Yeshu HaNotzri sairá para ser apedrejado, porque praticou feitiçaria, incitou e desviou Israel. Quem souber algo em sua defesa venha e o apresente”? Não encontraram defesa para ele, e o suspenderam na véspera de Pessach.
O texto não diz “um rabino de outra sensibilidade”. Diz feitiçaria, incitação e desvio de Israel. Sua continuação discute o procedimento aplicado ao mesit, o incitador ao culto proibido, e menciona a proximidade de Yeshu com o poder. Depois aparecem cinco discípulos. Por isso, apresentar essa passagem como reconhecimento de um mestre fiel à Torá é fazê-la anunciar justamente o contrário do que está escrito.
Trata-se do relato talmúdico e de suas categorias, não de uma transcrição de um processo romano. Sua leitura tampouco atribui culpa coletiva aos judeus pelo relato cristão da crucificação, nem autoriza aplicar penas antigas a ninguém hoje.
Ben Stada, Ben Pandera e os nomes da Guemará
Shabat 104b relaciona Ben Stada e Ben Pandera na própria discussão: pergunta por que se emprega um nome se ele é conhecido pelo outro, distingue marido e amante e menciona Miriam, que arrumava os cabelos das mulheres. A conclusão contém um jogo de palavras sobre seu desvio conjugal. A passagem, reproduzida no artigo sobre Miriam e Pandera, não será substituída por uma versão perfumada para consumo inter-religioso.
Também lemos a Guemará com seus comentaristas. Tosafot sobre Shabat 104b, no comentário iniciado por Ben Stada, situa o personagem no tempo de Pappos ben Yehudá e Rabi Akiva. Sanhedrin 107b e Sotá 47a situam o episódio de Yehoshua ben Perachya no tempo de Yannai. Essas indicações não formam, sem explicação, uma única cronologia correspondente à dos Evangelhos. Respeitar a transmissão exige conservar os nomes e as indicações de cada passagem; não fabricar uma biografia costurando trechos como se seus detalhes fossem intercambiáveis.
No episódio de Yehoshua ben Perachya, a advertência sobre afastar com a esquerda e aproximar com a direita acompanha a condenação do desvio. O dever do mestre não canoniza o erro do discípulo. Extrair dessa advertência uma aprovação religiosa de Yeshu seria transformar uma chamada à Teshuvá em certificado de que ninguém precisava fazer Teshuvá. Uma notável economia de leitura; uma péssima leitura da Guemará.
Jesus de Nazaré segundo o Rambam
Quando chegamos ao Rambam, a identificação é direta. Em Hilchot Melachim 11, nas versões não mutiladas pela censura, ele escreve sobre Yeshu HaNotzri, Jesus de Nazaré, que imaginou ser o Messias e foi morto. O Rambam mede essa pretensão pelo que os profetas disseram que o Messias realizaria: reunir os dispersos de Israel, fortalecer a observância das mitzvot, restaurar a dinastia de David e conduzir o mundo ao serviço do Deus Único.
Leia o parágrafo completo, sem as supressões das edições censuradas. Tradução própria do hebraico de Hilchot Melachim, capítulo 11, parágrafo iniciado por Af Yeshua HaNotzri (11:6 na divisão consultada):
Também Yeshua HaNotzri, que imaginou que seria o Messias e foi morto pelo tribunal, já fora anunciado por Daniel, como está dito: “E os violentos de teu povo se levantarão para estabelecer uma visão, mas tropeçarão” (Daniel 11:14). E existe tropeço maior do que este? Pois todos os profetas disseram que o Messias redime Israel e o salva, reúne seus dispersos e fortalece seus mandamentos; e este causou a destruição de Israel pela espada, a dispersão e a humilhação de seu remanescente, a substituição da Torá e o engano da maior parte do mundo para servir uma divindade além do Eterno.
O Rambam não chama isso de uma versão alternativa igualmente válida da redenção. Chama de tropeço e descreve a inversão da missão messiânica. Israel não foi reunido, o Templo não foi reconstruído e a Torá não foi restaurada por Jesus. Perceba o absurdo da inversão: a missão permanece por realizar, mas o título já deveria ser reconhecido como definitivo. Em qualquer outro assunto, chamaríamos isso de pedir o recibo antes de entregar a obra.
Na sequência, o Rambam explica que a Providência faz a difusão de termos sobre Torá e Messias preparar o mundo para sua futura correção. Não é uma retratação disfarçada. O capítulo termina assim, em tradução própria do parágrafo completo (11:9 na divisão consultada):
E quando o Rei Messias verdadeiramente se levantar, tiver êxito, for elevado e exaltado, imediatamente todos eles retornarão e saberão que seus antepassados lhes legaram falsidade e que seus profetas e antepassados os induziram ao erro.
Sendo assim, a preparação descrita pelo Rambam conduz ao abandono do erro, não à sua consagração. O Santo, Bendito seja, governa a história e pode conduzir até aquilo que se opõe à verdade para um desfecho que a revele. Essa soberania pertence ao Criador; não é uma aprovação dos dogmas cristãos.
O critério não é o milagre
A Torá antecipou a sedução produzida por sinais. Devarim 13 declara que, mesmo quando um prodígio anunciado acontece, Israel não deve seguir uma voz que o afaste do Deus de seus pais ou de Seus mandamentos. A verdade da revelação do Sinai não fica suspensa diante de uma cura, de uma visão ou de um relato extraordinário.
Do mesmo modo, o Messias não é reconhecido porque alguém atribuiu a si títulos elevados. Ele é um rei da Casa de David, comprometido com a Torá Escrita e Oral, que age dentro da história e cumpre a missão profética. Se morre antes de realizá-la, explica o Rambam, fica demonstrado que não era aquele prometido pela Torá. Bar Kochvá foi considerado uma possibilidade por Rabi Akiva; depois de sua morte, os Sábios reconheceram que não era o Messias. A regra vale sem favoritismo.
O Sinai não está em negociação
A resposta é inequívoca: rejeitamos a messianidade e a divindade de Jesus. Não há um segundo Sinai escondido numa mudança de pronúncia, numa tradução grega ou numa promessa de completar depois aquilo que não se realizou. A autoridade é a Torá, não a necessidade de salvar uma doutrina de suas próprias dificuldades.
O ponto mais importante, contudo, não está escondido numa censura antiga. Está diante de todos: a Torá não entregou a Israel a expectativa de um deus encarnado que revogaria seus mandamentos, mas a esperança de um rei humano, descendente de David, que restauraria a justiça, reuniria Israel e faria o conhecimento do Eterno encher a terra. Essa medida permite estudar a polêmica sem perder o centro.
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Fontes verificáveis
- Talmud Bavli, Sanhedrin 43a e Sanhedrin 107b.
- Talmud Bavli, Sotá 47a e Shabat 104b.
- Tosafot sobre Shabat 104b, comentário Ben Stada — indicação do tempo de Pappos ben Yehudá e Rabi Akiva.
- Mishnê Torá, Hilchot Melachim 11:1–4 e 11:6–9, conforme versões não censuradas.
- Devarim/Deuteronômio 13:1–6.
- Yeshayahu/Isaías 11:1–12 e Yechezkel/Ezequiel 37:21–28.
