Antes do Ramak, a Cabalá já possuía rios profundos. O Zohar, os escritos dos primeiros mekubalim e diferentes escolas descreviam as sefirot, os nomes divinos e o fluxo da criação em linguagens que nem sempre pareciam combinar. Para um estudante apressado, a solução mais simples seria escolher um mestre e descartar os demais.
Rabi Moshe Cordovero escolheu um caminho mais difícil.
Ainda jovem em Tzfat, ele organizou um dos grandes sistemas da Cabalá: o Pardes Rimonim, o Pomar de Romãs. A obra foi concluída em meados do século XVI, quando ele tinha pouco mais de vinte anos. O título já contém um aviso. Um pomar possui muitas árvores, mas recebe água de uma realidade mais profunda do que cada tronco isolado.
O Ramak entrou nesse pomar como alguém que sabia que aparentes contradições podem ocultar diferentes ângulos de uma mesma verdade.
Uma das questões centrais era a natureza das sefirot. Elas pertencem à própria essência divina? São instrumentos? São luzes? São recipientes? Se alguém responde de modo descuidado, pode aproximar-se de erros graves: multiplicar o que é absolutamente Um ou transformar a relação entre o Infinito e o mundo em algo grosseiro.
O Ramak não tratou o problema como uma disputa de nomes. Ele recolheu posições, comparou textos e construiu distinções. A luz procede do Ein Sof, enquanto as sefirot tornam possível que essa influência se revele de forma ordenada às criaturas. A unidade divina não se rompe porque a multiplicidade pertence ao modo de manifestação, não a uma divisão em Hashem.
Essa construção é muitas vezes apresentada como filosofia. Mas há nela uma história espiritual.
Imagine um estudante cercado de livros, diante de frases que parecem puxá-lo para direções opostas. A tentação é declarar rapidamente quem está certo. A humildade pede outra atitude: talvez o erro esteja na estreiteza de quem lê. Talvez duas formulações protejam verdades diferentes e precisem de uma linguagem mais alta para serem reconciliadas.
O Pardes Rimonim nasceu desse tipo de paciência.
O Ramak não esvaziou as divergências. Ele também não disse que todas as opiniões significam qualquer coisa. Seu trabalho é organizado em portões, e cada portão exige definições. Antes de subir, o leitor precisa saber onde está pisando. Misticismo sem ordem pode produzir excitação; raramente produz daat.
Há aqui uma diferença entre colecionar segredos e entrar no pomar. O colecionador deseja frases impressionantes. Quem entra no pomar precisa reconhecer relações: raiz e ramo, causa e efeito, ocultamento e revelação. Uma romã contém muitas sementes, mas uma só casca as reúne. Assim também, muitos detalhes da tradição precisam permanecer ligados à unidade da Torá.
O próprio nome Pardes evoca a conhecida passagem talmúdica dos quatro sábios que entraram no pomar. Um morreu, outro enlouqueceu, outro cortou as plantas e Rabi Akiva entrou em paz e saiu em paz. A narrativa não condena a busca. Ela ensina que a entrada exige preparo e que o verdadeiro êxito inclui a volta.
O Ramak escreveu uma obra capaz de conduzir o leitor por muitos portões sem permitir que ele se esqueça do centro. O objetivo não é fugir do mundo. É compreender como o mundo depende continuamente da vontade divina e, por isso, retornar à vida com maior responsabilidade.
Essa é também a razão pela qual o mesmo mestre que escreveu sobre mundos superiores compôs o Tomer Devorah, um guia de refinamento ético. Se alguém fala de Chessed no Alto e permanece mesquinho embaixo, não compreendeu Chessed. Se estuda Gevurá e não aprende disciplina, ficou do lado de fora. Se contempla Tiferet e cria discórdia, confundiu o desenho do portão com a entrada.
O pomar prova o visitante pelos frutos que ele leva de volta.
Pouco depois, a chegada do Arizal a Tzfat traria uma nova linguagem cabalística. A tradição preservou o Ramak como a grande figura anterior à escola luriânica, e gerações posteriores estudaram ambos. Não é necessário diminuir uma luz para reconhecer a outra. O próprio método do Ramak nos prepara para isso: a verdade divina é maior do que a capacidade de um único esquema encerrá-la.
Há algo profundamente atual nessa postura. Vivemos cercados de fragmentos. Uma frase de um rav, um ensinamento recortado, uma imagem de um livro, um segredo fora de contexto. O Ramak nos chama de volta ao pomar inteiro. Antes de repetir, ordenar. Antes de decidir, comparar. Antes de subir, purificar as qualidades.
O homem que entra assim não corta árvores para provar que encontrou o caminho. Ele percebe que cada raiz exige reverência.
E talvez essa seja a primeira sabedoria do pomar: quanto mais alto o conhecimento, menor deve parecer aquele que o carrega.
Referências
(Rabi Moshe Cordovero, Pardes Rimonim, introdução e Shaar 4, “Essência e Vasos”; Talmud Bavli, Chaguigá 14b; Rabi Moshe Cordovero, Or Ne’erav, partes 1–2; Rabi Moshe Cordovero, Tomer Devorah, introdução; Bracha Sack, The Kabbalah of Rabbi Moshe Cordovero, Ben-Gurion University of the Negev Press, 1995.)
