Tzfat já era uma cidade de alturas. Suas casas se agarravam à montanha, suas vielas recebiam o vento da Galileia e, em seus batei midrash, homens de grande estatura espiritual tentavam compreender o que havia acontecido com Israel depois das expulsões e dispersões. Mas, para Rabi Moshe Cordovero, o Ramak, havia perguntas que não podiam ser respondidas apenas dentro de uma sala.

Ele deixou um registro raro dessas saídas. Não uma lenda contada séculos depois, mas anotações ligadas às próprias caminhadas. A pequena obra ficou conhecida como Sefer Gerushin, o Livro dos Exílios ou das Expulsões. Nela, o Ramak data ao menos algumas de suas jornadas e registra os pensamentos de Torá que lhe vieram enquanto caminhava.

Na sexta-feira, 10 de Shevat de 5308, correspondente a 1548, ele escreveu que saiu para “o exílio do Rei e da Rainha” e foi até as ruínas do beit midrash de Nabartin. A expressão é carregada de linguagem cabalística. O Rei e a Rainha aludem à união entre as dimensões superiores representadas por Tiferet e Malchut. Quando essa união está oculta, a Shechiná é descrita como estando no exílio.

O Ramak não passeava para admirar a paisagem. Ele transformava os próprios passos em uma participação na dor da Shechiná.

É fácil falar do exílio como uma ideia distante. Mais difícil é permitir que essa ausência alcance o corpo. Sair de casa, reduzir o conforto, caminhar até cansar os pés e estudar entre ruínas fazia com que aquilo que era conceito se tornasse experiência. As pedras quebradas ao redor do antigo local de estudo não precisavam de enfeite. Elas já diziam que algo fora inteiro e não estava mais inteiro.

Foi ali que surgiu uma pergunta sobre o fluxo de vida entre as sefirot. O registro não nos entrega uma cena dramatizada, nem descreve vozes misteriosas. Ele nos mostra algo talvez mais profundo: o pensamento do Ramak despertava durante uma avodá concreta. Primeiro ele saía. Depois caminhava. Então a Torá se abria.

Essa ordem importa.

Muitas pessoas esperam compreender para começar a servir. O Ramak ensina o movimento inverso. Há portões que se abrem depois do primeiro passo. Enquanto o corpo permanece preso ao conforto, a alma pode repetir belas ideias sem realmente encontrá-las. Quando o corpo aceita uma pequena parcela do exílio, a pergunta muda de lugar. Ela deixa de ser apenas intelectual e passa a envolver a pessoa inteira.

No Tomer Devorah, o Ramak volta ao mesmo caminho. Ele ensina que o homem pode sair de um lugar para outro por amor ao Céu, reduzindo seus utensílios e caminhando sem o aparato de quem deseja preservar todas as comodidades. Seu objetivo não é cultuar o sofrimento. É tornar-se uma espécie de carruagem para a Shechiná exilada, acompanhando-a em vez de falar sobre ela à distância.

Esse é um ponto delicado. A Torá não ordena que alguém abandone irresponsavelmente sua família, sua saúde ou suas obrigações. O gesto do Ramak pertence a uma disciplina de homens elevados e precisa ser compreendido dentro de seus limites. Ainda assim, o seu princípio alcança qualquer geração: a Presença Divina é encontrada quando deixamos de fazer de nós mesmos o centro de tudo.

Às vezes, o nosso “gerushin” é menor. Sair do lugar habitual para visitar alguém esquecido. Caminhar até uma sinagoga quando seria mais confortável ficar em casa. Abrir espaço no horário para estudar quando a mente pede distração. Levar menos, reclamar menos, escutar mais. Pequenos deslocamentos podem quebrar a tirania do costume.

O Ramak também relaciona essa caminhada ao versículo “feliz aquele cujo auxílio é o D’us de Yaakov, cuja esperança está em Hashem”. Em hebraico, ele aproxima a palavra sivro, sua esperança, da raiz de shever, quebra. A esperança que ele descreve não é uma fantasia leve. É uma esperança nascida quando algo rígido se parte: o orgulho, o hábito, a ilusão de autossuficiência.

Por isso a ruína de Nabartin não é o fim da história. É o lugar onde uma nova compreensão começa.

Há ruínas também dentro da pessoa. Orações que perderam calor. Estudos interrompidos. Compromissos assumidos e abandonados. O instinto costuma dizer: esconda essas partes, procure um cenário mais bonito. O caminho do Ramak sugere outra coisa. Vá até a ruína com Torá. Não para morar nela, mas para descobrir qual centelha ainda pede elevação.

O Livro dos Exílios preserva um instante de 1548, mas a sua pergunta continua viva: até onde alguém está disposto a caminhar para não deixar a Shechiná sozinha?

Talvez o segredo esteja no fato de que ela nunca esteve realmente sozinha. O homem é que precisava sair de casa para perceber que, entre o pó e as pedras, a Presença já o esperava.

Referências

(Rabi Moshe Cordovero, Sefer Gerushin, registro de 10 de Shevat de 5308; Rabi Moshe Cordovero, Tomer Devorah, cap. 9; Zohar, vol. II, Vayakhel, 198a–198b; R. J. Zwi Werblowsky, Joseph Karo: Lawyer and Mystic, Oxford University Press, 1962; Don Karr, “Notes on the Study of Later Kabbalah in English”, seção sobre Moshe Cordovero.)