Quem lê Bereshit à procura apenas de grandes acontecimentos pode atravessar o capítulo 10 com alguma impaciência. Nomes, filhos, famílias, terras. A arca ficou para trás; Avraham ainda não apareceu. Parece o intervalo entre duas partes importantes. A Torá, porém, não perdeu o assunto. Está mostrando quem habitará o mundo que acaba de ser preservado.
Depois do Dilúvio, a humanidade não permanece uma pequena família à porta de uma embarcação. Ela se desdobra em povos, línguas e territórios. A tradição fala das שִׁבְעִים אוּמּוֹת, shivim umot, setenta nações. Essa expressão dá uma medida ao conjunto humano; não pretende oferecer uma lista dos Estados que encontraremos num mapa político atual.
Nomes antes de generalizações
O capítulo acompanha as descendências de Yefet, Cham e Shem. Ao concluir os grupos, repete referências às famílias, às línguas, às terras e às nações. A repetição impede que a diferença seja reduzida a uma palavra vaga. Os povos possuem relações, formas de falar e lugares nos quais vivem (Bereshit 10:5,20,31–32).
Há uma educação da atenção nesse modo de narrar. É fácil amar ou desprezar uma humanidade abstrata. Mais difícil é reconhecer que pessoas concretas têm uma história anterior ao momento em que entram no nosso campo de visão. A genealogia interrompe a fantasia de que o mundo começou quando passamos a ter interesse por ele.
A origem comum tampouco torna todas as condutas equivalentes. A Torá acompanha diferenças e julga atos. Não precisamos apagar o parentesco para condenar a idolatria, nem apagar a condenação da idolatria para reconhecer o parentesco. A clareza religiosa suporta as duas coisas. Quem exige que escolhamos apenas uma está oferecendo uma facilidade que o texto não oferece.
As setenta nações no serviço do Templo
Os Sábios utilizam as setenta nações como expressão do conjunto dos povos. Em Sukkah 55b, Rabi Elazar ensina que os setenta novilhos oferecidos durante Sukkot correspondem a essas nações. A Guemará aproxima, na mesma passagem, a oferta singular de Shemini Atzeret da relação particular entre Deus e Israel (Sukkah 55b).
Não se trata de escolher entre a singularidade de Israel e a existência do restante do mundo. O serviço no Beit HaMikdash possui uma ordem em que ambos aparecem, cada qual em sua medida. A proximidade particular de Israel não obriga a fingir que as demais nações são irrelevantes para o governo divino.
É uma correção importante para nossa tendência a confundir distinção com isolamento de consciência. Podemos saber a quem pertencemos sem esquecer diante de Quem o mundo inteiro existe. Nossa identidade não fica mais firme quando empobrecemos a visão do Criador. Fica mais firme quando assumimos a tarefa recebida, com seus limites e sua extensão.
Uma humanidade que não se explica sozinha
O mundo de Bereshit não é um encontro acidental de nomes sem ligação. Os povos surgem depois de uma preservação e dentro de uma aliança. A multiplicação continua a vida que Deus mandou guardar. Por isso, a genealogia não deve ser lida como se o Dilúvio, a responsabilidade pela vida e a imagem divina tivessem deixado de importar quando apareceram novas línguas.
Também não convém transformar os nomes antigos numa adivinhação sobre os vizinhos. Identificar povos exige fontes e cuidado; sem isso, produzimos apenas uma fantasia com aparência de erudição. É possível desenhar muitas setas num mapa e continuar sem saber do que se está falando. A quantidade de setas, infelizmente, não resolve o problema.
O estudo começa pelo que a Torá efetivamente apresenta. A família de um povo, sua passagem pelo relato e o lugar que recebe na tradição merecem atenção própria. Não precisamos colar um país moderno sobre cada nome para que o capítulo tenha valor. Sua primeira exigência é outra: aprender a ver o mundo como criação governada por Deus.
Antes do chamado de Avraham
Depois da amplitude do capítulo 10 e da dispersão de Bavel, a narrativa acompanhará a linhagem que chega a Terach e Avram. Esse estreitamento do foco não apaga os povos anteriores. É no meio desse mundo que a vida de Avraham assumirá sua tarefa. A promessa de bênção em Bereshit 12:3 voltará a mencionar as famílias da terra.
Há ocasiões em que precisamos olhar o conjunto antes de compreender uma missão particular. Sem o mundo dos povos, a saída de Avram pode parecer apenas uma mudança familiar. Com ele, percebemos o tamanho da responsabilidade que começa a ganhar forma: uma casa voltada ao Criador dentro de uma humanidade que precisa reconhecer a Quem pertence.
Os nomes, portanto, não atrasam a história. Eles impedem que a leiamos pequena demais. A Torá nos pede paciência para aprender quem está diante de nós antes de perguntar o que nos cabe fazer. E então, no meio de tantas famílias, começa a acompanhar uma caminhada.
Leituras relacionadas
- Noach (Noé): justiça e responsabilidade diante do Dilúvio
- Shem (Sem): transmissão, honra e bênção
- Adam (Adão): o primeiro ser humano
Fontes verificáveis
- Bereshit/Gênesis 10.
- Talmud Bavli, Sukkah 55b.
- Bereshit/Gênesis 9:1–17.
- Bereshit/Gênesis 11:10–32.
- Bereshit/Gênesis 12:1–3.
