O Baal Shem Tov viajava de Kaminka para casa. Rabi Baruch seguia noutra carroça, o escriba estava com o mestre e uma carga de farinha vinha atrás. Era inverno. O frio não permanecia do lado de fora das roupas; avançava pelo corpo.

O mestre havia indicado um lugar adiante onde fariam Minchá. Os acompanhantes calcularam a distância e protestaram. Não chegariam. O servo também dizia já não suportar o caminho.

Passavam então por uma floresta. O Baal Shem Tov mandou parar, aproximou-se de uma árvore e tocou-a com o dedo. A árvore começou a arder.

O fogo que não era destino

Aqueceram as mãos e o corpo. O servo retirou as botas e secou os panos dos pés. A chama não se tornou espetáculo nem sinal para fundar uma doutrina. Serviu para aquilo que era necessário: permitir que continuassem até o lugar da oração.

Quando retomaram a viagem, Rabi Baruch tentou olhar para trás, querendo saber o que aconteceria à árvore. O Baal Shem Tov o repreendeu e proibiu que observasse.

Essa proibição guarda o centro da história. O milagre não devia sobreviver como curiosidade separada do serviço. A árvore ardeu para que homens congelados pudessem cumprir Minchá, não para que Minchá fosse esquecida diante da árvore.

Não olhar para trás

O olhar humano deseja transformar a passagem do sagrado em objeto. Quer verificar quanto tempo o fogo durou, se consumiu o tronco, se deixou cinzas. O Baal Shem Tov interrompe essa vontade. Quando a ajuda cumpre sua missão, o viajante deve prosseguir.

A chama encontra também uma antiga imagem da Torá: o arbusto que ardia sem ser consumido diante de Moshe. Ali, o fogo abriu uma missão; não autorizou o profeta a permanecer diante do fenômeno. A visão exige caminho.

O serviço do Criador inclui o corpo real. Homens com frio não são repreendidos por sentir frio. Recebem calor. Mas o calor torna-se santo quando devolve o homem àquilo que deve fazer.

Ao longe estava o lugar escolhido para Minchá. Atrás, uma árvore ardia sob o inverno. Entre ambos, o Baal Shem Tov ensinava sem discurso: há luzes que só permanecem puras quando não nos voltamos para possuí-las.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato “A oração de Minchá na floresta”.
  • Shemot 3:1–6.
  • Talmud Bavli, Berachot 26b.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre oração e elevação da matéria.
  • Tzava’at HaRivash, ensinamentos sobre devekut durante a jornada.