Rabi Gershon de Kitov conhecia a Torá e sabia reconhecer um homem instruído. Seu cunhado, Israel, não lhe oferecia nenhum sinal digno de atenção. Parecia desajeitado, sem utilidade constante e distante da disciplina que Rabi Gershon esperava encontrar num homem sério.
Durante uma viagem, entregou-lhe as rédeas. Rabi Gershon adormeceu. Quando despertou, os cavalos estavam dentro de um trecho de água, lama e lodo. A carroça não podia avançar. A conclusão confirmou tudo o que já pensava sobre o cocheiro.
Mandar Israel buscar ajuda parecia inútil: ele certamente se perderia no caminho que seu coração desejasse. Rabi Gershon desceu pessoalmente, atravessou a lama e seguiu até um povoado em busca de homens capazes de retirar os animais.
A carroça que vinha ao encontro
No caminho de volta, acompanhado pelos trabalhadores, Rabi Gershon viu a própria carroça avançando tranquilamente em sua direção. Perguntou quem havia retirado os cavalos. Israel respondeu com naturalidade: dera-lhes um golpe e eles haviam saído imediatamente.
O acontecimento não convenceu Rabi Gershon. Ao contrário: decidiu que nem como cocheiro o cunhado servia. O segredo permaneceu protegido pela interpretação de quem o testemunhara.
Há ocultamentos que dependem de paredes. O de Israel dependia da certeza dos outros. Enquanto todos soubessem de antemão que ele era ignorante e incapaz, até um fato impossível seria reorganizado para caber nessa opinião.
O homem que parecia não servir
Rabi Gershon instalou o casal numa aldeia para que pudesse sobreviver. Ali, Israel construiu um pequeno lugar de isolamento na floresta. Passava dias e noites em estudo e oração, retornando à casa no Shabbat. Sua esposa sustentava o lar, recebia hóspedes e, quando alguém chegava, chamava o marido. Ele vinha servi-los. Os visitantes comiam à mesa de um homem que ainda não sabiam procurar.
O lamaçal torna-se, então, mais do que cenário. Rabi Gershon acreditou ter descido ao barro porque o outro fracassara. Enquanto buscava uma solução visível, Israel fez aquilo que ainda não podia revelar. Quando o cunhado retornou, o problema já vinha resolvido ao seu encontro.
A história não ridiculariza Rabi Gershon. Mais tarde, ele seria destinatário da carta mais conhecida do Baal Shem Tov e parte decisiva da transmissão de sua missão. O relato mostra a distância entre proximidade física e reconhecimento. É possível sentar ao lado de um segredo e vê-lo apenas como inconveniência.
Os cavalos saíram quando ninguém olhava. Assim também começava a emergir uma luz que, por algum tempo, só podia agir protegida pelo desprezo dos homens.
Referências
- Shivchei HaBesht, relato “Com seu cunhado Rabi Gershon”.
- Shivchei HaBesht, relatos sobre o ocultamento do Baal Shem Tov.
- Carta do Baal Shem Tov a Rabi Gershon de Kitov.
- Keter Shem Tov, ensinamentos sobre providência particular.
- Mishlei 25:2.
