O menino Israel ainda não podia medir o tamanho da ausência que se aproximava. Seu pai, Rabi Eliezer, já era velho. A tradição preservada pelos primeiros chassidim conta que ele atravessara cativeiro, terra estrangeira e perigos sem abandonar a fidelidade ao Criador. Agora, porém, não havia estrada pela frente. Havia apenas o filho sobre seus braços e poucas palavras antes do silêncio.

Rabi Eliezer não lhe deixou um método para evitar as trevas. Não prometeu que os caminhos seriam seguros. Disse-lhe: “Recorda por todos os dias de tua vida que o Eterno está contigo; por isso, não temas coisa alguma.”

A herança que não cabia numa casa

Há testamentos feitos de propriedades. A herança de Israel ben Eliezer foi uma presença. O pai não ensinou ao filho que o perigo era imaginário, mas que nenhuma criatura possuía existência independente do Criador. O medo cresce quando alguma força parece ocupar o lugar da soberania divina. A frase devolvia cada coisa ao seu limite.

Pouco depois, o menino ficou órfão. Os homens da cidade procuraram educá-lo e o confiaram a um mestre. Ele aprendia com facilidade, desaparecia com a mesma facilidade e era encontrado sozinho na floresta. Para os moradores, aquilo era o desajuste de uma criança sem vigilância. Para o menino, a floresta não estava vazia.

As árvores podiam esconder animais e homens. Ainda assim, a instrução paterna permanecia: o Criador estava ali antes dele. Israel entrou no lugar que os outros temiam carregando uma sentença que não expulsava o mistério, mas impedia que o mistério se transformasse em outro deus.

O temor que põe os demais temores em ordem

Mais tarde, o Baal Shem Tov ensinaria que o homem deve encontrar o serviço divino em cada movimento da vida. Isso não significa tratar o mundo com ingenuidade. Significa não conceder autonomia absoluta ao obstáculo. A criatura pode ferir; não pode tomar o trono.

O temor do Céu não é mais um medo entre os demais. Ele ordena todos os outros. Quando o homem se lembra diante de Quem está, o ruído das ameaças perde a autoridade de decidir quem ele será. A coragem não nasce de imaginar-se invulnerável. Nasce de saber que até a vulnerabilidade está diante de Adonay.

A última frase de Rabi Eliezer tornou-se a primeira porta da vida do filho. Antes das curas, das viagens, da revelação pública e dos discípulos, houve um órfão caminhando entre árvores. O mundo ainda não o chamava de Baal Shem Tov. A floresta, porém, já conhecia aquele que aprendera a não confundir sombra com soberania.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato sobre Rabi Eliezer, pai do Baal Shem Tov.
  • Shivchei HaBesht, relato sobre a infância de Israel ben Eliezer.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre temor, confiança e providência divina.
  • Tehillim 23:4.
  • Devarim 4:35.