Toda cidade sabe reconhecer uma criança difícil. Ao menos acredita saber. Israel ben Eliezer era levado ao mestre, aprendia durante alguns dias e desaparecia. Os responsáveis procuravam pelas ruas, perguntavam nas casas e finalmente o encontravam onde um órfão não deveria estar: sozinho na floresta.
Traziam-no de volta. Pouco depois, a floresta o recebia novamente.
Os adultos encontraram para aquilo uma explicação razoável. O menino não tinha pai nem mãe que o vigiassem. Era, portanto, indisciplinado. O juízo parecia completo porque era simples. Ninguém precisava perguntar o que uma criança fazia em silêncio entre árvores durante tantas horas.
A escola que não possuía paredes
O relato não despreza a casa de estudos. O Baal Shem Tov jamais ensinaria uma espiritualidade separada da Torá. O que a floresta lhe oferecia era outra coisa: a experiência de permanecer diante do Criador quando não havia plateia, reputação ou recompensa.
Ali não era possível representar o papel de piedoso. As árvores não se impressionavam. O menino carregava a instrução recebida de seu pai: Adonay está contigo; não temas coisa alguma. Cada ida à floresta colocava essa frase à prova.
O ocultamento é uma disciplina severa. Uma boa ação vista pelos homens recebe imediatamente o pagamento do reconhecimento. A ação escondida fica sem testemunha humana e, por isso, revela para quem foi realmente feita. Antes de ensinar multidões, Israel aprendeu a servir quando ninguém sabia que havia algo sendo aprendido.
O homem escondido dentro do menino
Os anos seguintes conservariam essa forma. Israel trabalharia como ajudante de professor, acompanhando crianças e ensinando-as a responder amen. Viveria entre pessoas que o julgavam simples. Depois se retiraria por longos períodos entre montanhas. Sua grandeza cresceria sob uma aparência comum.
Isso explica por que tantos relatos sobre sua revelação começam com alguém que o despreza. As pessoas olhavam para a roupa, para o ofício ou para o modo despretensioso e concluíam que nada havia ali. O Baal Shem Tov não era invisível; era visto superficialmente.
Talvez a floresta tenha sido sua primeira veste. Ela o escondia sem separá-lo do mundo. Quando voltava à cidade, trazia consigo a lembrança de que a presença divina não começa onde os homens a reconhecem.
Um dia, todos procurariam o Baal Shem Tov. Naqueles primeiros anos, porém, procuravam apenas um menino fugitivo. Encontravam-no entre as árvores e o levavam de volta, sem perceber que a floresta lhes devolvia alguém um pouco mais difícil de medir.
Referências
- Shivchei HaBesht, relato sobre a infância do Baal Shem Tov.
- Shivchei HaBesht, relatos sobre o período de ocultamento.
- Keter Shem Tov, ensinamentos sobre serviço divino sem interesse próprio.
- Tzava’at HaRivash, ensinamentos sobre devekut nas ações comuns.
- Tehillim 16:8.
