Os familiares perceberam que o Baal Shem Tov estava profundamente triste. Sua esposa havia falecido, e imaginaram que aquela era a causa. Perguntaram-lhe porque sabiam que seu modo de servir ao Criador não se abandonava facilmente à melancolia.
Ele respondeu que sua dor estava ligada às faculdades de consciência que precisariam repousar na terra. Esperava subir numa tempestade como Eliyahu HaNavi. Agora, dizia, sendo “metade de um corpo”, aquilo já não seria possível.
A frase abre uma região que o relato não tenta domesticar.
A expectativa do impossível
Eliyahu não deixou um túmulo comum. Um carro de fogo e cavalos de fogo separaram-no de Elisha, e ele subiu numa tempestade aos céus (Melachim II 2:11). O Baal Shem Tov não tratava essa passagem como memória distante. Esperava que sua própria saída do mundo tocasse aquele mesmo segredo.
Seu lamento não era desprezo pelo corpo. A Chassidut não procura fugir da criação. O corpo é lugar de mitzvah, oração, alegria e elevação. Exatamente por isso, a morte aparece como separação dolorosa: instrumentos de consciência cultivados no serviço precisam atravessar a decomposição.
A perda da esposa revelou também a unidade da casa. “Metade de um corpo” não era metáfora decorativa. Sem ela, o modo como imaginara completar a jornada já não permanecia inteiro.
O retorno que ninguém soube explicar
Outra tradição afirma que, se o justo redentor não viesse dentro de determinado número de anos, o Baal Shem Tov precisaria retornar a este mundo. Quando perguntaram sobre o sentido, respondeu que voltaria, mas não como era naquele momento. Os ouvintes não souberam explicar.
O texto conserva a obscuridade. Não fornece nome, data nem identidade posterior. Recusa-se a transformar esperança messiânica em caça a personagens. O que permanece é a intensidade de alguém para quem a redenção não era tema futuro, mas pressão presente.
Esperar o Mashiach, nesse horizonte, significa viver de tal forma que a distância entre terra e céu deixe de parecer normal. O túmulo é aceito, mas não celebrado como destino final. A criação aguarda transformação.
O Baal Shem Tov foi sepultado em Medzhybizh. A tempestade não o levou diante dos olhos dos homens. Ainda assim, suas fontes atravessaram terras, línguas e gerações. Talvez o relato nos deixe diante da pergunta certa: de quantas formas um homem pode não permanecer no lugar onde foi enterrado?
Referências
- Shivchei HaBesht, relato “Aguardando a redenção”.
- Melachim II 2:1–12.
- Carta do Baal Shem Tov a Rabi Gershon de Kitov.
- Keter Shem Tov, ensinamentos sobre Mashiach e difusão das fontes.
- Yeshayahu 25:8.
