Um comerciante chegou tarde com uma grande carroça carregada de tecidos. Não quis abrir a loja durante a noite. Desatrelou os cavalos e deixou a carga do lado de fora, confiando no tamanho do veículo: quem conseguiria roubar algo tão grande?

Um homem trouxe outros cavalos, prendeu-os à carroça e desapareceu com toda a mercadoria. Procuraram pelas ruas e encruzilhadas. Nada.

O comerciante enviou uma carta ao Baal Shem Tov. O mensageiro o encontrou junto à mezuzá, prestes a viajar para uma brit milah. O mestre leu e pediu que esperasse sua volta.

Um rosto piedoso na hospedaria

Na manhã seguinte, perto da cidade onde ocorreria a circuncisão, o Baal Shem Tov viu ao longe uma carroça com dois cavalos. Disse ao escriba Rabi Tzvi que aquela era a carga roubada. Ordenou que encontrasse a hospedaria do condutor e exigisse a devolução.

Rabi Tzvi encontrou o homem em oração. Sua aparência era a de alguém íntegro. O escriba não conseguiu acusá-lo e voltou. O mestre insistiu: se demorasse, o homem partiria.

Na segunda vez, encontrou-o fazendo a refeição da manhã. Perguntou ao hospedeiro se bebera como costumavam fazer os ladrões. A resposta também parecia inocentá-lo. Rabi Tzvi retornou novamente sem a carroça.

Então o Baal Shem Tov enumerou os sinais: o ladrão permanecera três dias escondido na floresta, esperando que os perseguidores passassem; depois dormira em determinado lugar e, noite após noite, seguira por pontos específicos até chegar à cidade.

Quando a máscara perde as mãos

Rabi Tzvi repetiu cada detalhe. As forças do homem cederam. Confessou e entregou a carroça.

Mais tarde, agora sem nada, decidiu participar da refeição da brit milah como os demais pobres. A história não termina com sua destruição. O objeto roubado retorna, a verdade aparece e o ladrão senta-se entre aqueles que dependem de misericórdia.

O escriba quase perdeu a mercadoria porque confundiu gesto religioso com retidão. A oração pode ser verdadeira; também pode ser máscara. O Baal Shem Tov não julgou pela expressão do rosto, mas pelo caminho percorrido no escuro.

Todos deixamos rastros que os homens não veem. Cada parada da carroça parecia apagada pela noite, até ser pronunciada em ordem. O mistério do relato não está apenas em como o mestre soube. Está no fato de que nenhum caminho permanece para sempre fora do conhecimento do Criador.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato “O Baal Shem Tov revela o ladrão”.
  • Bamidbar 32:23.
  • Talmud Bavli, Yoma 86b.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre providência particular.
  • Tehillim 139:1–12.