Havia guerra nas estradas. Rabi Yonah de Kaminka enviara bois para serem vendidos, e chegou a notícia de que soldados os haviam tomado. Rabi Baruch também tinha animais no caminho. O medo era simples e concreto: talvez a segunda caravana tivesse desaparecido como a primeira.
Rabi Yosef foi enviado ao Baal Shem Tov. Encontrou-o preparando as mãos para a refeição. O mestre ordenou que ele também fizesse netilat yadayim. Depois da bênção sobre o pão, perguntou por que não haviam falado com ele antes da partida: poderia ter velado por eles.
Então abriu o Zohar, fitou o texto por um instante e disse que os bois de Rabi Baruch permaneciam intactos.
Estava escrito no livro?
Rabi Yosef fez a pergunta que qualquer leitor faria: “Isso está escrito no Zohar?”
O Baal Shem Tov respondeu com o primeiro dia da criação. A Torá declara que Deus viu a luz e que ela era boa (Bereshit 1:4). Nossos Sábios ensinam que, por meio daquela luz, era possível contemplar de um extremo do mundo ao outro. Como a geração humana não era digna de usá-la, o Santo, bendito seja, ocultou-a para os justos.
Onde a ocultou? Na Torá.
O livro não continha uma anotação comercial sobre animais. Continha a luz pela qual a realidade podia ser vista em sua raiz. O Baal Shem Tov não disse ter lido uma informação; disse ter encontrado dentro da Torá aquilo que o Criador escondera no princípio.
A pergunta que ficou pequena
Depois acrescentou: “Pensas que vi apenas os bois?” Na mesma visão, afirmava ter contemplado um acontecimento em Amsterdam.
O relato não nos entrega esse segundo episódio. O silêncio é parte de sua força. Rabi Yosef foi buscar a resposta para uma preocupação localizada. Voltou com a notícia de que os animais estavam seguros e com uma ideia muito mais difícil de carregar: a Torá não é apenas descrição do que aconteceu. Ela guarda a luz pela qual o mundo continua sendo sustentado.
Isso não transforma o estudo numa técnica de adivinhação. A luz foi guardada “para os justos”, isto é, para aqueles cuja vontade deixou de usar o conhecimento como instrumento de domínio. Quem procura apenas poder encontra letras fechadas. Quem se submete ao Criador pode descobrir que a distância entre um livro e uma estrada é menor do que parecia.
Os bois continuavam caminhando. Sobre a mesa, o Zohar permanecia aberto. E entre ambos havia a luz que o primeiro dia não perdeu: apenas escondeu.
Referências
- Shivchei HaBesht, relato “O Baal Shem Tov contempla de um extremo do mundo ao outro”.
- Bereshit 1:3–4.
- Talmud Bavli, Chagigah 12a.
- Bereshit Rabbah 3:6.
- Zohar I, 31b–32a.
