Em Nemyriv, o Baal Shem Tov caminhava de uma casa maior para outra menor. Errou o caminho e entrou num porão. A situação parecia banal: uma porta confundida, alguns degraus na direção errada, o breve constrangimento de voltar.

Ele ordenou que verificassem as mezuzot.

Um homem perguntou se todo erro precisava ser ligado a alguma causa espiritual. Talvez fosse apenas acaso.

O Baal Shem Tov respondeu: “Para mim, não há acaso.”

Uma doutrina dentro de um passo errado

A frase não significa que todo homem possa interpretar imediatamente cada acontecimento. A precipitação em decifrar sinais produz superstição. A providência particular exige humildade porque afirma que há sentido antes de afirmar que conhecemos esse sentido.

O mestre não anunciou uma teoria sobre todos os porões. Mandou verificar uma mitzvah concreta. A mezuzá marca a passagem entre espaços e declara a unidade de Deus. Justamente quando uma passagem falhou, ele voltou a atenção para o sinal fixado nas portas.

O acaso oferece alívio: nada precisa ser escutado. A paranoia oferece outra armadilha: tudo se torna mensagem privada para o ego. O caminho do Baal Shem Tov atravessa ambos. O mundo está diante do Criador, mas o homem deve responder pela Torá, não por fantasias.

A pergunta depois do acontecimento

Na linguagem da Chassidut, uma folha não muda de lugar sem a providência. Isso não reduz a criação a um código secreto para satisfazer curiosidade. Significa que até aquilo que parece fora de rota pode entrar no serviço divino.

Um atraso pode chamar à paciência. Um encontro pode oferecer oportunidade de chesed. Uma porta errada pode lembrar que as portas corretas precisam de mezuzot válidas. O sentido não está sempre no que nos acontece; muitas vezes aparece no modo como respondemos.

“Para mim, não há acaso” é também uma descrição de consciência. Duas pessoas podem descer os mesmos degraus. Uma volta irritada. A outra pergunta qual responsabilidade se apresentou naquele lugar.

O porão de Nemyriv não se tornou santuário. Continuou sendo porão. Mas, durante alguns instantes, revelou que nenhum espaço está realmente fora do alcance da soberania divina. O erro de caminho terminou; a pergunta permanece aberta diante de cada porta.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato “Para mim, não há acaso”.
  • Devarim 6:4–9.
  • Mishlei 20:24.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre hashgachá pratit.
  • Tzava’at HaRivash, ensinamentos sobre servir ao Criador em cada circunstância.