Rabi Nachman de Horodenka possuía uma qualidade firme: diante de tudo o que via ou lhe acontecia, dizia que era bom e para o bem. Sua confiança era comparada a uma coluna de ferro.

Quando soldados foram alojados nas casas judaicas de Medzhybizh, o Baal Shem Tov pediu que ele rezasse para que fossem retirados. Rabi Nachman respondeu que aquilo também era para o bem.

O mestre não elogiou a frase. Disse-lhe que era uma felicidade ele não ter vivido na geração de Haman; talvez declarasse que o decreto de destruição também era bom. O bem, acrescentou, foi Haman ter sido enforcado.

A fé que não cruza os braços

O Baal Shem Tov não rejeita a confiança. Rejeita sua transformação em passividade. A providência divina não libera o homem da oração, da defesa do outro nem do dever de mudar uma situação perversa.

Há uma fé que reconhece a mão do Criador e por isso age. Há outra que usa o Nome divino para não agir. As duas podem pronunciar a mesma frase, mas caminham em direções opostas.

O próprio Rabi Nachman viveria outro episódio que iluminaria sua qualidade. Viajava numa sexta-feira com o rabino de Polonne. Uma carruagem senhorial avançava lentamente à frente deles e não ousavam ultrapassá-la. O rabino começou a se desesperar: chegariam depois do início do Shabbat. Rabi Nachman repetia que aquilo era para o bem, aumentando a irritação do companheiro.

Pouco adiante, encontraram uma longa coluna de carroças presa na neve. Ao ver a carruagem do senhor, todos abriram passagem. Protegidos por ela, os viajantes atravessaram e chegaram a tempo.

O bem que ainda exige discernimento

Numa história, a frase parecia evasão; noutra, percepção. A diferença não está nas palavras. Está no dever presente. Quando é possível rezar contra a opressão, a confiança deve levar à oração. Quando o caminho está bloqueado e a pessoa não pode comandar os acontecimentos, a confiança impede que o coração se desfaça antes da próxima curva.

O mistério da providência não autoriza chamar o mal de bem. Obriga-nos a não declarar o fim antes de a história terminar. Haman continua sendo Haman, e deve cair. A carruagem lenta continua irritante, até que se torna passagem aberta na neve.

O Baal Shem Tov preservou as duas verdades: tudo está sob o governo do Criador, e o homem continua responsável por aquilo que faz diante Dele.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato “Tudo para o bem”.
  • Megillat Esther 3–7.
  • Talmud Bavli, Ta’anit 21a.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre providência e ação humana.
  • Tehillim 121.