Rabi Pinchas de Koretz e outro rabino viajavam para arrecadar dinheiro destinado ao resgate de um prisioneiro. Souberam que o Baal Shem Tov passaria o Shabbat em Kaminka e decidiram procurá-lo. Talvez a salvação viesse sem que precisassem percorrer tantas cidades.

Chegaram depois que ele retornara do mikveh. Seus acompanhantes advertiram que naquele estado já não era possível conversar com ele. Bastaria aparecer diante do mestre; ele compreenderia a necessidade. Quando os viu à porta da casa de estudos, o Baal Shem Tov fez um gesto para que partissem.

Enquanto isso, o pai de Rabi Pinchas, Rabi Avraham Abba, chegara à região. Não tinha estima pelo Baal Shem Tov e questionava as viagens do filho. Resolveu permanecer por perto e ensinar numa sinagoga local.

O homem que veio conferir

Na manhã de Shabbat, Rabi Avraham apareceu enquanto o Baal Shem Tov conduzia a oração. Rezou em voz alta junto à arca. Mais tarde, durante a leitura da Torá, foi repreendido de maneira que pareceu ofensiva. Rabi Pinchas temeu pelo confronto.

Na terceira refeição, o pai entrou novamente. Quando o Baal Shem Tov começou a ensinar, Rabi Avraham levantou-se, colocou-se diante dele e fixou o olhar em seu rosto. Ao terminar, o mestre declarou que precisava acrescentar algo que não planejara dizer, porque ouvira aquele ensinamento no Gan Eden sendo pronunciado em seu próprio nome.

Rabi Avraham aproximou-se outra vez e escutou até o fim.

Depois da oração noturna, disse ao filho: “É ele, e nenhum outro.”

A palavra reconhecida

Rabi Pinchas perguntou o que havia acontecido. O pai contou que, naquela noite, sonhara entrar no Gan Eden. Ali, o Príncipe da Torá pronunciara um ensinamento em nome do Baal Shem Tov. Ao despertar, lembrava-se de cada palavra. Viera para verificar.

O que ouviu à mesa foi exatamente o que escutara no sonho.

Sua mudança não nasceu de persuasão. Ele não foi vencido num debate. Reconheceu uma palavra que chegara antes ao lugar onde os argumentos ainda não haviam entrado.

O Baal Shem Tov, por sua vez, não suavizou sua presença para conquistar o visitante. Deixou que o Shabbat revelasse aquilo que precisava ser revelado. A Torá passou do Gan Eden ao sonho, do sonho à memória e da boca do mestre ao ouvido daquele que viera desconfiar.

Quando a terceira refeição terminou, nada exterior parecia diferente. Mas um homem que entrara para examinar saiu dizendo que não havia outro. Às vezes, a porta da confiança não se abre pela novidade. Abre-se quando a alma reconhece algo que já ouvira do outro lado.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato “Palavras de Torá do Gan Eden”.
  • Shivchei HaBesht, tradições transmitidas por Rabi Pinchas de Koretz.
  • Talmud Bavli, Berachot 57b.
  • Zohar II, 88b, sobre a terceira refeição de Shabbat.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre a raiz celestial da Torá.