Israel pediu emprestado ao rabino de Kitov um exemplar do Zohar. Levava o livro sob o casaco quando encontrou Rabi Gershon, seu cunhado. A pergunta veio imediatamente: “O que tens escondido aí?”

Israel não quis responder. Rabi Gershon desceu da carroça, encontrou o volume e o retirou de suas mãos. Seu espanto trazia uma sentença: “Tu precisas do Zohar?”

O livro foi levado. A opinião permaneceu. Para Rabi Gershon, aquele homem simples não possuía instrumentos para entrar nas câmaras de Rabi Shimon bar Yochai.

Uma respiração interrompida

Algum tempo depois, Israel entrou na cidade para orar na casa de estudos. Durante a Amidá, soltou um gemido profundo. O rabino Moshe, chefe do tribunal local, ouviu. Depois da oração, perguntou o que havia acontecido.

Israel tentou afastar a pergunta, mas o rabino insistiu: aquela respiração não vinha do corpo apenas. Então ele respondeu que a mezuzá do lugar estava inválida e perturbara sua oração.

A mezuzá foi examinada. Encontraram nela exatamente o defeito indicado.

O rabino não organizou uma disputa para provar quem tinha razão. Entregou a Israel o exemplar do Zohar e o abençoou para que Rabi Gershon não o interceptasse outra vez.

Quem pode abrir um livro

Há livros que permanecem fechados mesmo quando estão sobre a mesa. Outros continuam abertos mesmo quando são arrancados das mãos. Rabi Gershon viu um objeto escondido sob o casaco; Israel procurava a luz escondida dentro da Torá.

O relato não sugere que a sensibilidade substitua a halachá. Foi justamente uma mezuzá, objeto regido por letras, pergaminho e leis precisas, que revelou a profundidade de sua percepção. O mundo espiritual do Baal Shem Tov não pairava acima das mitzvot. Ele penetrava nelas.

O gemido durante a Amidá mostra que uma letra ferida não era detalhe distante. A palavra colocada à porta e a palavra pronunciada na oração pertenciam à mesma ordem. Quando uma delas estava quebrada, o homem que ouvia profundamente não atravessava o texto como se nada houvesse ocorrido.

Rabi Gershon ainda precisaria de tempo para reconhecer o cunhado. O Zohar, porém, voltou às mãos de Israel. Desta vez, não porque ele argumentou em favor da própria grandeza, mas porque uma mezuzá silenciosa testemunhou por ele.

Referências

  • Shivchei HaBesht, relato “O Baal Shem Tov estuda o Zohar”.
  • Zohar, introdução, sobre a luz e as letras da Torá.
  • Devarim 6:4–9.
  • Talmud Bavli, Menachot 32a–34a.
  • Keter Shem Tov, ensinamentos sobre as letras da oração.