Uma equipe pode funcionar muito bem e estar indo para o lugar errado. As tarefas são cumpridas, todos compreendem as instruções, o material chega e a obra cresce. Nada disso responde à pergunta que costuma ficar para depois: por que estamos construindo? Em בָּבֶל, Bavel, Babel, essa pergunta se esconde atrás de um empreendimento grande o bastante para impressionar seus próprios autores.
Bereshit 11 começa com uma humanidade de língua comum. Os homens se estabelecem numa planície de Shinar, fabricam tijolos e propõem uma cidade e uma torre. Querem fazer um nome para si e evitar a dispersão. O projeto reúne técnica, cooperação e uma ambição que não se satisfaz com habitar a terra.
Um nome para quem?
A preocupação em fazer um nome aparece explicitamente em Bereshit 11:4. O nome, aqui, não é apenas uma maneira de identificar a cidade. Integra o propósito pelo qual ela será erguida. A obra deve garantir a permanência da grandeza de seus construtores (Bereshit 11:1–4).
Conhecemos essa inclinação sem precisar fabricar um único tijolo. Há trabalhos em que servir se torna, aos poucos, uma desculpa para ser lembrado. A necessidade original continua no discurso, mas as decisões passam a proteger o prestígio do responsável. O nome ficou maior que a tarefa. Se ninguém percebe, chamamos isso de sucesso.
Não é errado construir algo que dure. Uma casa de estudo precisa de continuidade, uma família precisa de estabilidade e uma comunidade precisa planejar. O desvio aparece quando a duração de nosso nome se torna o critério superior. A pergunta religiosa é se aquilo que permanece dará testemunho do serviço ou apenas da nossa dificuldade de aceitar limites.
A língua comum não era o pecado
Rashi identifica a língua comum como lashon hakodesh, a língua sagrada, e explica as palavras compartilhadas da geração por meio de seu conselho de rebelião contra Deus. Assim, a qualidade do instrumento não garante a qualidade do uso. Até a língua sagrada pode ser mobilizada para uma direção que nega seu devido serviço (Rashi sobre Bereshit 11:1).
Esse detalhe impede um elogio simplista de qualquer multiplicidade e uma condenação simplista de qualquer unidade. O problema não é haver acordo, nem pensar com referências comuns. Sem isso, sequer conseguiríamos estudar juntos. O problema é transformar o acordo humano numa autoridade que dispensa o julgamento da Torá.
Quando todos concordam, a pergunta sobre a verdade continua necessária. A unanimidade pode ser fruto de aprendizado; também pode ser fruto da decisão de não ouvir o que incomoda. O número de vozes não muda a direção de uma frase. Uma rebelião pronunciada em coro não se transforma em tefillah.
A paz conserva seu valor
Rashi, em Bereshit 11:9, compara essa geração à do Dilúvio. Os construtores de Bavel se rebelaram contra Deus, mas conservaram amor e companheirismo entre si; não foram destruídos como a geração marcada pela violência e pela disputa. O comentário conclui afirmando a grandeza da paz e a gravidade da discórdia (Rashi 11:9).
O mérito não transforma o erro em acerto, mas também não desaparece apenas porque o erro é grave. A justiça divina não precisa simplificar as pessoas para julgá-las. Podemos condenar a direção de Bavel sem fingir que toda capacidade existente nela era má. A precisão é mais exigente que a caricatura.
Essa medida alcança nosso modo de discutir. Quando uma pessoa erra, não recebemos autorização para declarar falsas todas as suas qualidades. Fazer isso pode facilitar a briga; não melhora o julgamento. A Torá nos pede firmeza diante da transgressão e honestidade diante do que continua sendo mérito.
Ver antes de julgar
Antes da intervenção, o texto diz que o Eterno desceu para ver a cidade e a torre. Rashi explica que Deus não precisava dessa descida; a passagem ensina aos juízes que devem ver e compreender antes de condenar. A linguagem da Torá forma nossa conduta, não atribui desconhecimento ao Criador (Rashi sobre Bereshit 11:5).
É uma pausa notável numa história de pressa coletiva. Enquanto os homens pretendem subir, a narrativa nos ensina a examinar. A construção é interrompida, as línguas são confundidas e ocorre a dispersão que tentavam evitar. A concentração de forças não se mostrou capaz de garantir o domínio que desejavam.
Bavel deixa uma pergunta para toda obra comum: estamos unidos para servir a quê? A paz é um bem, a linguagem é um dom e construir pode ser uma responsabilidade. Precisamente por isso, não devemos entregá-los à vaidade. Uma casa não precisa tocar o céu para cumprir sua tarefa. Precisa reconhecer Quem a sustenta enquanto permanece sobre a terra.
Leituras relacionadas
- Noach (Noé): justiça e responsabilidade diante do Dilúvio
- Enosh (Enos): como começa a idolatria
- Adam (Adão): o primeiro ser humano
Fontes verificáveis
- Bereshit/Gênesis 11:1–9, com Rashi.
- Rashi sobre Bereshit 11:9.
