“Avraham disse ao seu servo, o mais velho de sua casa, que governava tudo o que ele possuía: põe, por favor, tua mão sob minha coxa” (Bereshit 24:2). O capítulo não pronuncia o nome do servo, mas a Torá Oral o identifica como אֱלִיעֶזֶר, Eliezer, o damasceno que aparece como responsável pela casa de Avraham (Bereshit 15:2; Bereshit Rabbah 59:9). A omissão do nome manifesta sua posição na missão: ele não viaja para estabelecer a si mesmo, mas para servir à continuidade da aliança.

Avraham é idoso, o Santo, bendito seja, o abençoou em tudo, e Yitzchak precisa formar sua casa. A esposa do filho da promessa não pode ser escolhida pela beleza, riqueza ou conveniência. Dela procederá a geração seguinte. Por isso Avraham chama o homem que conhece sua Torá e provou sua fidelidade.

Um juramento junto ao sinal da aliança

Avraham ordena a Eliezer que coloque a mão sob sua coxa e jure por Adonay, Deus dos céus e da terra. Rashi explica que o juramento é feito junto à brit milah porque uma mitzvah deve acompanhar aquele que jura, e esse foi o primeiro mandamento recebido por Avraham em seu corpo (Rashi sobre Bereshit 24:2).

O servo não deverá tomar para Yitzchak uma mulher entre as filhas dos cananeus. Deverá ir à terra e à família de Avraham. Se a mulher não consentir em acompanhá-lo, estará livre do juramento; contudo, jamais deverá levar Yitzchak de volta para lá (Bereshit 24:3–8). A missão possui santidade e limites. Procurar a família correta não autoriza desfazer o Lech Lecha nem retirar o filho consagrado da terra prometida.

Avraham confia que Adonay enviará Seu mensageiro diante do servo. Sua bitachon, confiança no Criador, não produz descuido. Ele formula o juramento, estabelece o proibido e prevê a recusa. A emunah verdadeira não chama a imprudência de milagre.

Yoma ensina que o “mais velho da casa” era um ancião que se sentava na yeshivah e que “governava tudo” significa que dominava a Torá de seu mestre (Yoma 28b). Eliezer recebe a missão porque sua fidelidade não é apenas administrativa. Ele sabe o que a casa de Avraham serve e qual separação precisa guardar entre a santidade da aliança e a idolatria de Canaã.

A viagem e a tefilah junto ao poço

Eliezer toma dez camelos e parte para Aram Naharaim. Rashi transmite que os camelos de Avraham eram distinguidos porque viajavam protegidos para não pastar em campos alheios; transmite também que o servo levava uma escritura pela qual Avraham destinava seus bens a Yitzchak, demonstrando a seriedade da união proposta (Rashi sobre Bereshit 24:10; Bereshit Rabbah 59:11).

A missão destinada a erguer uma casa santa não começa por transgressões no caminho. A avodat Hashem se revela tanto no juramento em nome de Adonay quanto no cuidado para não tocar o que pertence a outro.

Ao chegar ao poço, Eliezer faz os camelos se ajoelharem e dirige sua tefilah ao Deus de Avraham: pede que o encontro aconteça naquele dia e que o Criador faça chesed com seu senhor. O sinal que propõe não se baseia em aparência. A jovem a quem ele pedir água deverá responder: “Bebe, e também darei de beber a teus camelos” (Bereshit 24:11–14).

Eliezer procura chesed porque a casa de Avraham é edificada por chesed. O critério não é um ornamento moral acrescentado à linhagem; é a forma visível de uma alma capaz de entrar na tenda da aliança. Ele ora e, ao mesmo tempo, observa. Tefilah não o dispensa de discernimento, e discernimento não o torna independente da ajuda dos Céus.

A resposta antes do fim da oração

Antes de terminar de falar, Rivkah chega com o cântaro sobre o ombro. Eliezer pede um pouco de água. Ela se apressa, dá-lhe de beber e corre para buscar água para todos os camelos até que acabem (Bereshit 24:15–20). O servo a observa em silêncio, desejando saber se Adonay fizera prosperar sua jornada.

Mesmo diante da resposta exata, ele não abandona a ordem. Pergunta de quem ela é filha e se existe lugar para a comitiva. Quando descobre que é filha de Betuel, filho de Milcah e Nachor, curva-se e bendiz Adonay, que não abandonou Seu chesed e Sua verdade para com Avraham (Bereshit 24:23–27).

A providência não desperta nele vanglória. Quanto mais reconhece a mão do Criador, mais se curva. O emissário de uma mitzvah não se apropria daquilo que os Céus fizeram prosperar através dele.

Rashi ensina ainda que a viagem foi abreviada milagrosamente. Ao repetir o relato, Eliezer diz: “Hoje cheguei à fonte”, indicando que partiu e chegou no mesmo dia. Rabbi Acha observa que a conversa dos servos dos patriarcas é preciosa diante do Onipresente, pois a Torá repete o relato de Eliezer, enquanto muitas leis são entregues por alusão (Rashi sobre Bereshit 24:42; Bereshit Rabbah 60:8). Cada palavra do servo fiel torna-se parte da Torá.

“Servo de Avraham sou”

Na casa de Betuel, alimento é colocado diante de Eliezer, mas ele se recusa a comer antes de falar. Começa com uma declaração: עֶבֶד אַבְרָהָם אָנֹכִי, eved Avraham anochi, “servo de Avraham sou” (Bereshit 24:34). Ele narra a bênção concedida ao seu senhor, o nascimento de Yitzchak, o juramento, a oração e o encontro com Rivkah.

Rashi encontra na escrita incompleta de ulai, “talvez”, uma alusão a um desejo que Eliezer havia possuído: ele tinha uma filha e esperara que Yitzchak pudesse unir-se a ela. Avraham lhe respondeu que o filho abençoado não poderia unir-se à descendência submetida à maldição de Canaan (Rashi sobre Bereshit 24:39; Bereshit Rabbah 59:9). A grandeza de Eliezer aparece porque ele não permite que esse interesse governe sua missão.

Ele poderia atrasar a busca ou enfraquecer a proposta. Faz o oposto: relata a prosperidade concedida por Adonay e pede uma resposta clara. Lavan e Betuel reconhecem que a coisa saiu do Eterno. Eliezer se prostra diante de Adonay antes de entregar os presentes (Bereshit 24:49–53).

Esse é o serviço que corrige a vontade particular. Não basta obedecer quando a ordem coincide com o desejo. Avodat Hashem começa a ser provada quando a pessoa realiza com zelo a vontade do Criador precisamente onde seu próprio interesse precisa ceder.

Entregar a missão e retirar-se

Na manhã seguinte, a família deseja adiar a partida. Eliezer pede que não o detenham, porque Adonay fez prosperar seu caminho. Rivkah é chamada e responde “Irei”. Então o servo a recebe e retorna (Bereshit 24:54–61).

Ao avistar Yitzchak no campo, Rivkah pergunta: “Quem é aquele homem?” Eliezer responde: “Ele é meu senhor” (Bereshit 24:65). Aquele que tantas vezes chamou Avraham de seu senhor reconhece agora a autoridade de Yitzchak, o continuador da aliança. Não conserva para si a noiva, os bens, o sinal ou a honra da jornada.

Eliezer conta a Yitzchak tudo o que fez, e o texto passa à entrada de Rivkah na tenda de Sarah. Sua recompensa está na fidelidade cumprida. Bereshit Rabbah ensina que, por servir ao justo com emunah, Eliezer saiu da condição de maldito e entrou na de bendito (Bereshit Rabbah 60:3).

A Torá nos apresenta nele o shaliach neeman, o emissário fiel: recebe a palavra, guarda limites, reza, discerne, vence o interesse próprio e entrega o resultado. Diminuir diante da vontade de Adonay é a honra de servir sem falsificar a ordem.

Leituras relacionadas

Referências

  • Bereshit 15:2–3; 24:1–67.
  • Rashi sobre Bereshit 24:2–10, 39, 42 e 57.
  • Bereshit Rabbah 59:9–11.
  • Bereshit Rabbah 60:3, 8 e 12.
  • Yoma 28b.