“E foi a vida de Sarah cem anos, vinte anos e sete anos; os anos da vida de Sarah” (Bereshit 23:1). A Torá conta os anos de שָׂרָה, Sarah, a primeira matriarca, antes de narrar sua morte em Kiryat Arba, que é Chevron. Não se trata apenas de informar uma idade. O versículo separa cem, vinte e sete e torna a reunir todos na expressão “os anos da vida de Sarah”. Rashi transmite que cada período guardou sua integridade e que todos os seus anos foram igualmente bons, porque a santidade que os unificou não dependeu de uma existência sem provas (Rashi sobre Bereshit 23:1; Bereshit Rabbah 58:1).

Sarah atravessou a fome, o exílio, as casas de faraó e Avimelech, a espera por um filho e a defesa do lugar de Yitzchak na aliança. Sua bondade foi fidelidade a Adonay através de cada prova. Por isso a parashah que começa com sua morte recebe o nome de Chayei Sarah, “a vida de Sarah”: aquilo que foi santificado em seus dias continua a agir quando Avraham se levanta para honrá-la.

A notícia da Akedah e o pranto de Avraham

A morte de Sarah aparece imediatamente depois da Akedat Yitzchak, o atamento de Yitzchak sobre o altar. Rashi explica que, ao receber a notícia de que seu filho havia sido preparado para o sacrifício e estivera a ponto de ser oferecido, sua alma partiu; Pirkei deRabbi Eliezer conserva essa mesma cadeia da tradição com seus pormenores (Rashi sobre Bereshit 23:2; Pirkei deRabbi Eliezer 32).

Essa proximidade não diminui a elevação da Akedah nem atribui falta a Sarah. A Torá nos ensina que uma neshamah santa não é uma pedra. Aquele que serve ao Criador com inteireza não deixa de amar, de tremer e de chorar. Avraham vem para pronunciar o hesped, o lamento que declara o valor da vida da falecida, e para chorar por ela. O pai que havia contido a mão sobre o monte não contém as lágrimas diante de sua esposa.

Depois do pranto, “Avraham levantou-se de diante de sua morta” (Bereshit 23:3). Levantar-se não é abandonar o luto; é permitir que o luto produza a mitzvah necessária. A dignidade de Sarah exige agora sepultura, e o amor deve assumir forma em atos precisos. Avraham fala aos filhos de Chet porque a santidade não transforma a negligência em confiança. O corpo da matriarca precisa ser conduzido com kavod, honra, a um lugar adquirido sem dúvida e sem contestação.

Estrangeiro e residente na terra prometida

“Sou estrangeiro e residente entre vós”, declara Avraham (Bereshit 23:4). As duas palavras permanecem juntas: גֵּר וְתוֹשָׁב, ger vetoshav. Rashi ensina que, se os habitantes aceitassem vender, ele agiria como estrangeiro; se recusassem, afirmaria o direito que procede da promessa do Santo, bendito seja (Rashi sobre Bereshit 23:4).

Avraham conhece a promessa da terra, mas não a usa como permissão para tomar de Efron aquilo que ainda não foi adquirido. A emunah não dispensa a justiça; ela a torna mais exigente. A terra pertence a Adonay, e justamente por isso não pode ser recebida através de roubo, fraude ou confusão. O sagrado não se edifica com instrumentos profanos.

Os filhos de Chet chamam Avraham de “príncipe de Deus” e oferecem suas sepulturas. Ele se curva diante do povo e pede que intercedam junto a Efron. Avraham solicita a caverna de Machpelah e insiste em pagar o valor integral para possuí-la como achuzat kever, propriedade de sepultura.

O Zohar observa a sabedoria de sua conduta: embora Efron estivesse presente e Avraham desejasse aquela caverna, ele não começa exigindo-a diretamente, mas fala diante da assembleia, preservando a paz e conduzindo a aquisição de modo público (Zohar I, 127a–127b). A santidade de seu desejo aparece também na forma de alcançá-lo.

Quatrocentos shekalim diante de testemunhas

Efron diz que oferece o campo e a caverna, mas logo menciona quatrocentos shekalim de prata. Avraham ouve, pesa a soma e a entrega em moeda aceita pelos mercadores (Bereshit 23:10–16). Rashi nota que Efron falou muito e não realizou nem pouco, pois terminou cobrando moedas de grande valor; a escrita diminuída de seu nome denuncia a distância entre a generosidade pronunciada e o ato praticado (Rashi sobre Bereshit 23:16; Bava Metzia 87a).

Avraham não converte a mesquinhez de Efron em desculpa para profanar sua própria obrigação. Paga tudo diante dos filhos de Chet. Então o campo, a caverna, as árvores e seus limites são estabelecidos como sua propriedade perante todos os que entravam pelo portão da cidade. A Torá repete os elementos da compra porque a memória de Sarah não será sustentada por uma concessão ambígua.

Há aqui uma medida para toda avodat Hashem. Quando uma mitzvah envolve bens, terra, sustento ou compromisso, o temor do Céu deve entrar também nos pesos, nas palavras e nas testemunhas. Não existe piedade na boca acompanhada de desordem nas mãos. Aquele que deseja santificar uma parte do mundo precisa afastar dela qualquer vestígio de apropriação injusta.

A caverna que se abre para o Gan Eden

מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה, Mearat HaMachpelah, é a Caverna Dupla. Rashi e a Guemará registram duas explicações: era formada por dois espaços, um dentro do outro ou um sobre o outro; e era dupla pelos casais ali sepultados — Adam e Chavah, Avraham e Sarah, Yitzchak e Rivkah, Yaakov e Leah (Rashi sobre Bereshit 23:9; Eruvin 53a).

O Zohar revela que Avraham conhecia a santidade do lugar, havia visto ali Adam e Chavah e percebido a luz que procedia da entrada do Gan Eden. Por isso seu coração desejava a caverna, mas ele aguardou o momento em que a necessidade do sepultamento permitisse pedi-la sem despertar oposição (Zohar I, 127a–127b). O que aos olhos de Efron era campo negociável, aos olhos de Avraham estava ligado ao segredo da origem e do retorno da humanidade.

Sarah é sepultada no lugar em que o primeiro casal aguardava. A primeira matriarca de Israel entra na caverna de Adam e Chavah, e a história da aliança não se separa da história da Criação. A eleição de Avraham e Sarah não nega que todo homem procede de Adam; ela estabelece no mundo a casa que servirá ao propósito para o qual Adam foi formado.

A vida que permanece na aliança

Depois, Yitzchak e Yishmael sepultarão Avraham ao lado de Sarah. Yaakov, antes de morrer, ordenará a seus filhos que o levem à mesma caverna e repetirá os nomes daqueles que ali repousam, bem como a compra feita dos filhos de Chet (Bereshit 25:9–10; 49:29–32). A propriedade adquirida no dia de luto torna-se lugar de reunião das gerações.

A morte não entrega os justos ao esquecimento. Berachot ensina que os tzadikim são chamados vivos mesmo depois da morte, porque sua ligação com o Criador e o fruto de suas ações continuam no mundo (Berachot 18a). A vida de Sarah permanece na tenda que Rivkah fará reviver, em Yitzchak e nas gerações da aliança.

A Torá nos chama a santificar também nossa relação com a morte: cumprir o kavod hamet, honrar o falecido, consolar os enlutados, guardar a verdade nas questões materiais e lembrar que a neshamah retorna ao Criador. Avraham chorou, levantou-se, pagou e sepultou. Nenhum desses verbos anulou o anterior. O pranto permaneceu verdadeiro; a mitzvah também.

Leituras relacionadas

Referências

  • Bereshit 23:1–20.
  • Rashi sobre Bereshit 23:1–4, 9 e 16.
  • Bereshit Rabbah 58:1, 7–10.
  • Pirkei deRabbi Eliezer 32.
  • Bava Metzia 87a.
  • Eruvin 53a.
  • Zohar I, 127a–127b.
  • Bereshit 25:9–10; 49:29–32.
  • Berachot 18a.